Mensagens

Águas de Março: Sobre Relações Humanas

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“Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa.” Clarice Lispector Acho que nunca tinha dissertado muito sobre este assunto. Na verdade, penso até que, de alguma forma, sempre foi para mim um tema tabu… Cresci numa família próspera em conflitos familiares, o que me fez persistir na vontade de querer fazer diferente. No entanto, nestes últimos 6 meses em que estive ausente por cá, este tema tem-me ocupado os neurónios… Talvez porque foram meses de algumas mudanças e as mudanças trazem sempre consigo algumas verdades sobre a natureza humana. Fazer escolhas em prol do nosso bem-estar implica sempre deixarmos algumas pessoas pelo caminho ou que estas saiam de livre vontade. Ainda não percebi porquê, mas lido mal com essas saídas, como se essas pessoas, mesmo que me tenham magoado, ao saírem, levassem consigo uma parte da minha...

O Peso da Condição

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“As relações têm um caráter prioritário para todos nós, a nossa suscetibilidade face aos outros deixa-nos vulneráveis a todo o tipo de dano e, em casos extremos, à possibilidade da morte.” Donna Hicks in Dignidade Apercebi-me rapidamente que não estavas bem. Não que as circunstâncias fossem propícias a outro estado de espírito, mas tinha esperança de te encontrar melhor. Egoísmo meu, seguramente: precisava que estivesses bem. Mas, a verdade, é que não estavas. Notei-te feliz por me veres. Muito feliz, até. Como se eu fosse uma lufada de ar fresco no teu luto. Foi quando entrámos no carro – o mesmo de tantas aventuras, de tantos quilómetros sem destino – que percebi. Ainda nem tínhamos saído do parque de estacionamento e já estavas a justificar a tua falta de desenvoltura: que já não conduzias há 3 anos por causa das gravidezes de risco, que o Carlos te levava a todo o lado e que se metia muito com a tua forma de conduzir. Fomos ao centro histórico, como antigamente, b...

Urgências

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Não me lembro de qualquer detalhe do percurso até ao hospital. Da mensagem recebida até entrar nas urgências, tudo se apagou. Não me deixaram entrar. Comecei por deambular na sala de espera. Li várias vezes todos os cartazes afixados: o da triagem de Manchester, o do apoio à vítima de violência doméstica, os deveres e direitos do acompanhante. Sobretudo esta última parte... As mensagens que fui trocando contigo não me apaziguavam. Só ficaria tranquila quando te visse, te tocasse e depois de ouvir 530 vezes da tua boca que estavas bem. Resolvi fazer as minhas orações. Sentei-me por momentos e fechei os olhos. Comecei por pedir-Lhe desculpa por só me lembrar Dele nestas ocasiões. Depois, disse-Lhe o que eu não queria que te acontecesse. Devo ter tido uns 10 minutos de abstração, até começar a tomar consciência do que se passava à minha volta. As cenas, quase surreais, sucederam-se. A da mulher, amparada por dois homens, que se sentou ao meu lado – qual pontaria! – e que não p...