O Sétimo do Ano e o Primeiro Apocalipse
Estamos em julho e ainda só li 7 livros. Muito abaixo da minha média habitual.
Contudo, os que li valem por dois ou três. Basta citar alguns nomes e o meu argumento solidifica: Tolentino Mendonça, Valter Hugo Mãe, Beatrice Salvioni (para mim, a revelação do ano), Rodrigo Guedes de Carvalho.
É sobre O Meu Primeiro Apocalipse que escrevo hoje. A minha entrada no livro não foi fácil. É um livro diferente dos anteriores romances de Rodrigo Guedes de Carvalho, que li todos. No entanto, suspeito - agora lido - que este terá sido o meu preferido, destronando o Cuidado com o Cão, no qual mergulhei a fundo e do qual me apropriei para a honrosa tarefa de o apresentar a convite do município da Mealhada.
De Rodrigo Guedes de Carvalho gosto do ritmo e da crueza que reencontro neste livro também. O efeito premonitório do livro funcionou muito bem para mim, porque profundamente verosímil. Num verão em que milhares de hectares ardem em Portugal e Espanha, em que já quase tudo se escreve num teclado e em que pensar criticamente, estudar ou investigar parecem exigir um esforço que poucos estão dispostos a fazer, o apocalipse imaginado por Rodrigo Guedes de Carvalho deixa de parecer ficção.
O livro fica bastante sublinhado porque aborda temas recorrentes cá em casa: as mortes anunciadas da Literatura (insisto na maiúscula) e do jornalismo (mulher de jornalista me confesso), a estupidificação causada pelas redes sociais e pela IA, a irritante “zona de conforto”, o copy/paste digital e social, os territórios conquistados pelas extremas-direitas...
Adorei o recurso ao autor-personagem, mais uma vez verosímil e bem contextualizado, e à descrição de um alguém simultaneamente triste e feliz que encontramos em outros autores como em Tolentino Mendonça, Pessoa e Virgílio Ferreira.
Faltaram-me apenas as referências musicais tão características de Rodrigo, as bandas sonoras que habitualmente povoam os seus livros e com as quais viajamos também.
O sétimo livro do ano. O (meu) primeiro apocalipse.
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