Hábito
Disseste-me que me habituaria às rugas dele e aos cabelos brancos. Tinhas razão. Habituei-me. Sou mulher. Habituei-me a tudo; aos clássicos masculinos (à tampa da sanita levantada, à roupa desarrumada, às Tupperwares vazias no frigorífico...) e a muito mais... Eu, tão ordeira que sou. O hábito foi a minha defesa, a par dos livros, do trabalho, da corrida. O hábito faz o monge, diz-se, o hábito fez a mulher, digo. O homem nunca cria hábitos; lança âncoras. Há-os que dizem que têm. Mas não têm. Quando muito, têm rotinas, seguranças sem consistência que substituem à primeira alternativa supostamente melhorada, qual espírito cartesiano... Não se habituam a nós. Somos um bem adquirido, indefetível. Talvez nos amem, sim. Amam olhando para o lado, para a TV, as revistas ou redes sociais, cobiçando secretamente outros corpos, saciando-se no nosso, por enquanto. E esse “por enquanto” até pode ser “até ao fim”, mas, no entretanto, nunca bastamos. E vamos competindo, também se...