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Hábito

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Disseste-me que me habituaria às rugas dele e aos cabelos brancos. Tinhas razão. Habituei-me. Sou mulher. Habituei-me a tudo; aos clássicos masculinos (à tampa da sanita levantada, à roupa desarrumada, às Tupperwares vazias no frigorífico...) e a muito mais... Eu, tão ordeira que sou. O hábito foi a minha defesa, a par dos livros, do trabalho, da corrida. O hábito faz o monge, diz-se, o hábito fez a mulher, digo. O homem nunca cria hábitos; lança âncoras. Há-os que dizem que têm. Mas não têm. Quando muito, têm rotinas, seguranças sem consistência que substituem à primeira alternativa supostamente melhorada, qual espírito cartesiano... Não se habituam a nós. Somos um bem adquirido, indefetível. Talvez nos amem, sim. Amam olhando para o lado, para a TV, as revistas ou redes sociais, cobiçando secretamente outros corpos, saciando-se no nosso, por enquanto. E esse “por enquanto” até pode ser “até ao fim”, mas, no entretanto, nunca bastamos. E vamos competindo, também se...

Imprevistos (II)

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Lá vem ela. Não falha. Sempre à mesma hora. Magrita. Sempre aprumada. O meu homem diz que, se ela vivesse numa mansão, já teria sido assaltada: as rotinas dela são fáceis de estudar. Não se lhe ouve nada: nem o arrastar de uma cadeira, nem o aspirador. A Judite do 3.º frente diz que ela é maníaca por limpeza. Deve passar o chão a pano todos os dias, por causa do pelo dos gatos. Não é de conversas, mas cumprimenta sempre. Não é de mostrar os dentes, mas é afável e educada. Contudo, não dá margem; é assim há mais de 15 anos; desde que se mudou para cá. No outro dia, a Carla da cabeleireira, da Ritus’, que tem uma prima que é da terra da mãe dela, contou lá no salão que ela já foi uma senhora. Muito bem casada, ao que parece, com um empresário da Capital. Mas que caiu em desgraça. Gostava da pinga e isso custou-lhe a vida de um filho pequeno. Uma distração. Uns, dizem que foi numa piscina, outros, de uma varanda. Coitada... E também ficou sem marido. Parece que a respons...

O Véu e os Cabelos

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Eras brilhante! Boa aluna, tranquila, culta, falavas pouco, mas sem hesitações; parecias não ter dúvidas sobre coisa nenhuma. Todas nós te envejávamos secretamente. Parecias não ter (não tinhas) aquelas questões existenciais que nos tolhiam os intervalos das aulas e os serões: se as nossas paixões avassaladoras eram correspondidas, como íamos mandar a próxima mensagem subliminar ao alvo das nossas insónias, que roupa iríamos vestir no sarau da escola, como íamos convencer os nossos pais a deixar-nos sair no próximo sábado à noite, se devíamos optar por unhas de gel ou acrílicas… Sabíamos-te de uma cultura e credo diferentes, mas não entendíamos (nem queríamos entender) os meandros da diferença. Aquele véu que nunca tiravas parecia envolver-te numa aura de intocabilidade. Nas vésperas do Bataclan querias ir para medicina. Tinhas tudo o que era preciso. No rescaldo do Bataclan, fizeste um técnico-profissional de cabeleireira. O teu véu denunciar-te-ia. Eu e todas aq...

Conto de Natal dos Tempos Modernos, Sem Avareza e Rituais Americanos

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Ele. Gostava da sétima arte e colecionava os DVD dos seus filmes e séries de culto. Nunca pirateados. Só dos que traziam o selo da IGAC. Opunha-se a cópias e imitações, e ordenava as caixas em várias estantes, por géneros e pela ordem das suas preferências. Sabia de cor diálogos e tinha vívidos na memória cenários, cenas e bandas sonoras. Reificava realizadores, atores e atrizes. Tratamento equivalente era aplicado à sua música. Esta escrupulosamente categorizada em ficheiros do seu PC, no qual ninguém podia entrar, não se fosse apagar algo acidentalmente. Cada escolha tinha uma história motivada, um sentimento associado, uma sensação refletida. Os seus sonhos de vida eram de concertos intimistas, os seus heróis eram cantores desconhecidos do grande público, sobre os quais tudo sabia. Era organizado, meticuloso e apreciava o rigor das coisas simples. Ela. Era completamente obcecada por livros. Já não tinha lugar para eles, mas continuava a adquiri-los. Nem...

Longas Viagens de Carro sem Portagens

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Sou hospedeira de bordo. Sou hospedeira de bordo por paixão. Ainda pertenço àquela geração à qual foi permitido seguir sonhos de infância e concretizá-los. Sempre soube que não teria raízes, que dificilmente constituiria uma família e que os meus armários estariam sempre “quase vazios”. A minha família e os meus amigos vestem a mesma farda. Tive alguns namorados em alguns (aero)portos. Nada de sério. Não seria duradouro. Mas fui feliz. Passei a fasquia dos 40 e as vontades começaram a mudar. Comecei a importar-me. Comecei a querer ter um lar e alguém à minha espera, alguém de quem cuidar. Comecei a querer ter uma estante com filmes, uma biblioteca com livros e uma garrafeira com vinho alentejano. Alguém a quem contar o meu dia, alguém de quem ouvir o relato do seu, a quem dar palpites. Alguém com quem passear de mão dada, alguém a quem contar os cabelos brancos e com quem fazer longas viagens de carro sem portagens. Logo no primeiro encontro, percebi que eras tu. Esta...