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Papel Secundário

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O caminho tem sido sinuoso. Quando penso estar quase a alcançar a meta, sou reenviada para a casa de partida. São já 3 décadas desta luta e começo a ficar cansada. Cansada das tentativas. Dos novos projetos. Das desilusões. Por mais que eu me tente convencer de que eu não sou responsável por esses fracassos, não consigo deixar de pensar nas muitas pessoas que cruzaram estas minhas batalhas e que arrastei comigo, nesses sonhos vãos. O pior é que começo a duvidar das minhas capacidades (ou deveria dizer competências?). Serei assim tão boa profissional? Tão rigorosa? Tão organizada? Não serei antes uma fraude? Uma ilusionista? Uma impostora. Na verdade, hoje, quero muito pouco da vida profissional. Gostaria de ter um quotidiano tranquilo, sem sobressaltos, sem confusões. Sem longas viagens. Sem precariedade. Sem interrogações. Sinto que desperdicei tempo, oportunidades, dinheiro em prol de um sonho caprichoso e sem sustentação. Não estará na hora de eu acordar desse sonho? De virar a pági...

Entremets

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  Não houve mais nada a seguir, nem seria necessário. Se já experimentaram a sensação de terem uma sala de cinema só para vós, imaginem terem um restaurante para gaudio privado. Entra-se e é-se logo abraçado pela sobriedade decorativa e pelo atendimento made in escola suíça, braço atrás das costas. Rapidamente percebemos que seríamos um misto de únicos clientes da noite e cobaias gustativas. Provavelmente, lemos bem e fomos bem lidos.   Entrada, prato de peixe, prato de carne, sobremesa 1 e sobremesa 2. O prato minimalista é pousado na mesa e acompanhado de um contexto. Um meio-caminho entre nouvelle cuisine e festim para todos os sentidos. Como sempre, fiquei do teu lado direito com acesso visual privilegiado à cozinha envidraçada. Quando o chefe de sala terminava a sua explicação e se retirava, Samuel fixava-se em nós e perscrutava cirurgicamente todas as nossas reações. Creio que também nos lia os lábios. Entregámo-nos sem rede àquela dupla e até o nosso vinho alentejano ...

Dez Novembros

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Aquelas semanas de novembro deixaram uma marca na minha vida como pegada na lua. Começou com a viagem a Madrid. Lembro-me que estava bom tempo para novembro e que trocámos mensagens que terminavam com beijos doces e chantilly. A mala ia carregada de esperanças de negócios fáceis e voltou sem estes, mas com o coração mais aconchegado. De regresso a Portugal, somos acolhidas com a notícia do sangrento ataque ao Bataclan. As inexplicáveis imagens entravam pelas nossas casas adentro, deixando pavor e incompreensão. Aquilo tocou-me e, durante dias, dormi pior do que já dormia.  Na semana seguinte, fui a França em trabalho. O tempo piorou, entretanto. Nas poucas voltas que consegui dar, deparei-me com rostos tristes e medrosos. Os escaparates coloriam-se de títulos garrafais a remeter para a tragédia. Comprei a Paris Match para memória futura. Como se fosse possível esquecer... Lembro-me que também trocámos mensagens. Recomendavas prudência. Dizia-se que os ataques não ficariam por ali e...

Linha Azul

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Atravesso a espaçosa sala das bilheteiras, saio para a rua. Dou de caras com um grupo de 4 muçulmanos ajoelhados e virados para Meca. É o Ichá, dirão os entendidos. Procuro o início da fila dos táxis. Parece que passou a ser perigoso apanhar Ubers à noite e, assim, não tenho de esperar e de tentar decifrar marcas de carros e matrículas ao longe. A visão já não ajuda. Entro. O meu motorista é brasileiro e não sabe onde fica o bairro de Pedralvas. “Meta Benfica no GPS. Havemos de nos desenrascar”. Desenrascamos. De manhã, chamo um Uber. A praça de táxis ainda é longe e, de dia, o risco é menor. Lá vem o Edemilson. Brasileiro. A conduzir um carro manifestamente pequeno para o seu tamanho. Desconfortável (ele, o condutor). Vocifera a cada fila  de trânsito (onde estão os uberistas que nos perguntam se o ar condicionado está bom, se queremos mudar de estação de rádio e nos oferecem um Ferrero Rocher?).   Para compensar, trabalho em locais fantásticos e aprendo que me farto. O traba...

A Superfície

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  Sou uma baleia.   Não pelo tamanho, mas pelo modo de sobrevivência. No fundo do mar, tenho um habitat temporário, turvo e povoado. Consigo ficar submersa por algumas horas, porque me foco na superfície.   Penso nesse momento em que me encaminharei para lá, Em que esguicharei o ar quente e poluído, Em que inspirarei o ar puro e concretizarei a minha troca gasosa.   Mesmo longe, comunico-me contigo. E quando te encontro, é lá que me reproduzo e amamento,   É à superfície que descanso. É à tona que me oriento e me encontro: olho para o sol e navego... Para ti.   És a minha superfície.

A Pradaria

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Durante muitos anos, como D. Quixote, lutei contra moinhos de vento. Lutas inglórias, como se sabe.   Nos dias em que estava mais inspirada, sentia-me como se tivesse escrito um best-seller e tivesse os holofotes editoriais todos apontados para mim à espera do próximo lançamento. Ouvia vozes: “nenhum livro que ela venha a escrever será tão bom quanto o último”, “quem ela julga que é?”, “deve ser plágio, de certeza!”. Eu que nunca escrevi nada...   Ou, melhor, escrevo agora. Escrever salva-me da perda da razão, acalma-me, ilumina o turvo, dá sentido à minha confusão mental. Mas não escrevo para os outros; apenas para mim, para servir os meus propósitos de clarividência. Seria incapaz de escrever algo não-genuíno. Se a minha escrita vier, um dia, a afetar positivamente outros, terá sido apenas um efeito colateral. É a história do voluntário ao contrário: o voluntário dá aos outros e recebe mais do que dá, eu escrevo para mim e posso vir a dar aos outros... sem certezas...  ...

Sim

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Os anos de solidão anestesiaram-me os sonhos ao ponto de pensar que já não poderia sonhar. As lutas profissionais monopolizaram as minhas dores, as minhas horas, as minhas noites. Menina, com a cabeça sempre enfiada em livros, eu costumava flutuar. Mulher, embora com a cabeça em livros, aterrei na realidade de uma vida sem sonhos. Depois, conheci-te.   E, pouco a pouco, ano após ano, a solidão foi-se dissipando porque tinha alguém a quem mandar mensagem quando chegava ao destino, alguém a quem contar o meu dia, alguém em quem despejar as minhas frustrações. As lutas profissionais continuaram, mas havia as sextas à noite, um horizonte contigo, conversas sem fim, um colo... E o meu dia chegou, aquele que nunca pensei viver, o meu sonho. Ajoelhaste-te, pensei que estavas – como é teu hábito – a brincar comigo. Não levei a mal a brincadeira e entrei nela, sentei-me ao colo do teu joelho enterrado na areia húmida. E, nervoso, estendeste-me a caixinha, abriste-a, pediste-me para casar co...