Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Ficção

Fait-divers 1

Imagem
Era empregado bancário, usava fato e gravata, parecia importante. Naquele dia, passaram-lhe a chamada: - Tens de vir depressa, o avô está morto, não sei o que se passou. Quando chegou a casa dos pais, o cenário era perturbador: a mãe chorava descontroladamente e a sobrinha parecia estar em estado catatónico. O pai, estendido no chão da sala, parecia morto, de facto. Não foi capaz de lhe tocar. Ligou para o 115, respondeu às perguntas sem vacilar, só queria que viessem rapidamente. Na verdade, não se lembra do tempo que demoraram a chegar, mas pareceu-lhe tempo a mais. Tudo lhe parecia a mais. Sobretudo as recomendações: - Não toque em nada. Depois da emergência médica foi a espera pelo Médico Legista. Mais uma longa espera. Demasiado longa.   Declarado o óbito, seguiu-se a espera pelos senhores da agência funerária.   Tudo somado, pareceram-lhe várias horas, não se lembra exatamente de quantas. Foram muitas, demasiadas. Quando chegaram os dois senhores de fato preto, chegou co...

Liberdade Não Condicional

Imagem
Santarém, 14 de maio de 2023  Reabro hoje esta porta. Agredi. Fui agredida. Cumpri a minha pena. Saio, hoje, em liberdade não condicional. Numa fração de segundos, as sinapses que estavam adormecidas estabeleceram a ligação e tudo ficou claro. Claro como a água daquele lago. Nada acontece por acaso, diz o povo hoje. Não fui ali por acaso. Tinha de ver, com os meus próprios olhos. Ver o que não queria ver, mas tinha de ver.  Reabro hoje esta porta. Já não há motivo algum para estar fechada. Nada temo. Nada tenho a esconder. Nada escondi. Abro-a, bem aberta. Cumpri a minha pena. Estou em liberdade não condicional. Café Avenida, 14/05/2023, 9h10

Macabeus

Imagem
No ano 150, Judas cercou a cidadela de Jerusalém. Mandou construir catapultas e outras máquinas de guerra para dizimar os judeus. Alguns dos sitiados conseguiram romper o cerco e dirigiram-se ao Rei. - Sempre te fomos fiéis e te servimos obedecendo a todas as tuas ordens e às do teu pai. Se não tomas a dianteira, farão ainda piores males e não os poderás dominar. * Nesse dia, Mariana tinha tomado café com a Fernanda. Em poucos minutos, todo o seu desespero veio à tona. Fernanda escutou, de semblante carregado. - Sinto-me no meio do deserto, Amiga. Perdida. - Por amor de Deus, Mariana, faz o que te digo: chegas a casa, ajoelhas-te e pede-Lhe! Pede-Lhe que te oriente! Abre a Bíblia ao calhas e lê: lá encontrarás a tua resposta! Mariana chegou a casa e distraiu-se com os afazeres do jantar. Jantou e ainda pôs uma máquina a lavar roupa. Só quando se sentou no sofá para, finalmente, descansar, se lembrou da Fernanda. Como gostaria de ter aquela fé! Como gostaria de olhar para o futuro com a...

O Anfitrião

Imagem
Introito (para ti, no dia do teu aniversário, porque te amo)   Na noite de 14 de abril de 1912, um navio com 2208 pessoas a bordo, com destino a Nova Iorque, embateu num icebergue, no Atlântico Norte. 1496 pessoas morreram. 712 sobreviveram. 712 pessoas conseguiram chegar a terra firme, deixando para trás longas horas de horror, carregando nos bolsos algumas joias de família (o que foi possível resgatar “de valor” daquele naufrágio) e a convicção de que as suas vidas ficariam suspensas naquela noite. Todos conhecemos a história, nem que seja por causa do filme de Cameron que retratou a história de amor da aristocrática Rose e do jovem artista Jack. Para quem não viu o filme, aposto que conhecem a música My Heart Will Go On imortalizada por Céline Dion. Em 2009, morreu a última sobrevivente dos 712. A última pessoa com a propriedade de poder contar a sua experiência na primeira pessoa. Contudo, continuamos – e continuaremos – a ouvir histórias inspiradas naquela noite. 712 pessoas t...

Sétimo e último encontro com o escritor

Imagem
- Quem é a Ana e quais são os seus valores? - Pergunta densa... - Não é a pergunta pela qual começam todos os livros de autoajuda? - Já não leio livros de autoajuda... - Ainda assim... consegue responder? - Por onde começar? - Pelo princípio. - Fui uma criança que viu, ouviu e sentiu coisas que não deveria ter visto, ouvido e sentido. - Depois... - Enquanto adolescente, desenraizaram-me e continuei a ver, ouvir e sentir o que não devia. - E depois? - Já adulta, vivi tempo de mais a ilusão de poder construir uma vida sem essas cenas de vida, mas, inconscientemente, atraí-as de novo para mim. Voltei a ver, ouvir e sentir o que não devia... - A história continua? - Quando, recentemente, tomei consciência desta repetição de ciclos, comecei, finalmente, a mudar o meu destino. Ainda não deixei de ver, ouvir e sentir aquelas cenas, mas estou a caminho. Ironicamente, têm sido os meus guias, os meus critérios na definição dos meus valores. E os meus valores são, afin...

A Casa

Imagem
Já tinha passado dos 40 e estava já divorciada quando o meu pai comprou o casarão. Fui visitá-la com a minha mãe numa tarde de outubro, já o chão se cobrira de folhas cor de fogo e a temperatura apelava à lareira. Nunca percebi e nunca me explicaram os contornos daquela compra. A casa estava parcialmente mobilada, parecendo estar parcialmente habitada, não o estando. Era gigantesca. Daquelas construções de outros tempos, feitas para durar, com compartimentos amplos, nos quais se podia dançar a valsa de Strauss. A minha mãe passou a visita toda a chamar o meu nome e a proferir exclamações: - Laura! Anda ver! Que lindo! - Este vai ser o quarto da Helena! E aquele o do André! - Olha-me estas credências! Parecem ter um dossel! - E estes espelhos! Olha-me estas molduras em talha dourada! Parecem as da basílica do Santo Cristo! - Virgem Santíssima! (...)  A minha cabeça rodava de tanta informação. Por que teria o meu pai comprado aquela casa entre a serra e o mar de...

Casa de Memórias

Imagem
Apaixonei-me pelas tuas memórias. Pela tua irritante capacidade de fixar o tempo. Com palavras, conseguias fotografar o espaço e o sentimento. Sempre detestei em silêncio os adeptos do Carpe Diem, os esquecidos, os alienados do passado. Os que não choram ao ver fotos antigas, que não têm paciência para falar com os mais velhos na fila do supermercado, que se desfazem da roupa usada com facilidade. Naquele dia de novembro, o meu prumo desabou. Eu, tão cheia de mim, de certezas, de mentiras. Tu, à minha frente, tão cheio de aparente calma, serenidade, incertezas. Esqueci-me do tempo; deixei-me embalar na tua voz. Mas tinhas hora marcada e eu fiquei sem chão. Os dias (as semanas, os meses e os anos...) seguintes foram estranhos. Passei-os a abrir precedentes, a quebrar as regras do meu código, a ser genuinamente feliz. Acho que, sem querermos e sem procurarmos, descobrimos a tal fórmula mágica. O código secreto da harmonia e da plenitude. O dom de tirarmos as palavra...

Imprevistos (I)

Imagem
Entrou no pequeno apartamento às 19 horas e logo os dois felinos se precipitaram ao seu encontro. Como em todos os dias úteis (se é que se podia atribuir esse qualificativo aos seus dias), saiu do trabalho às 18h03 (não fosse o patrão acusá-la de sair antes da hora contratual), dirigiu-se em passo rápido para a Central de Camionagem onde chegou às 18h11, apanhou o autocarro das 18h15 e chegou ao destino às 18h50, mais coisa, menos coisa. A diferença até às 19 horas, ou seja, até ao momento da entrada no dito apartamento dos felinos, corresponde à duração do percurso entre a paragem do autocarro e a sua residência habitual. Se chegasse mais tarde, tal significava que o referido autocarro das 18h15 se tinha atrasado, ou na partida, ou no percurso. Alda não gostava de imprevistos. Mecanicamente, descalçou os botins, arrumou-os, alinhados, na sapateira da entrada, pendurou o Kispo cor de tijolo, calçou as pantufas, foi ao quarto pousar a mochila e dirigiu-se à cozinha onde enfiou o...

Óleo de Cedro

Imagem
Voltei hoje àquela praia após quinze anos. Assim que pus o primeiro pé na areia e a minha vista alcançou as barraquinhas, lembrei-me logo dela. Éramos vizinhos de praia. Reservávamos as barracas de um ano para o outro para conseguir os melhores lugares. Apesar de um ano inteiro sem contacto, sabíamos que, logo no primeiro dia, a menina Idalina - Lina para os amigos - lá estaria. Chegávamos por volta das nove e meia, eu, a minha mãe a minha irmã. Hei-de morrer sem ter visto o meu pai pisar a areia e ir ao mar. Quando chegávamos, a Lina já lá estava: - Gosto dos primeiros movimentos na praia – Dizia ela. Embora bastante mais novo, acho que tinha uma paixoneta pela Lina. Fingia não prestar atenção àquela “conversa de mulheres”, mas sorvia cada comentário, cada máxima, cada ritual, cada cheiro. Vinha sempre sozinha, nunca falou muito do resto da sua vida e dos restantes onze meses do ano. Essencialmente, “trabalhava para o bronze”: ia ao mar em linha quase recta, não fosse pelas ...