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As Celas deste Mundo

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É impossível passar pela experiência do filme Milagre na Cela 7, sem ficar com todas as estruturas abaladas... É como acabar um livro excelente e ficar com aquela sensação de vazio, de quase-luto... Nada do que vier será tão bom. As redes sociais encarregaram-se de dar a conhecer que o filme põe a chorar até o coração mais duro. O que elas não dizem (ou dizem-no pouco) é que o filme agita, tira o sono, interpela... A mim, pôs-me a pensar nas celas metafóricas deste mundo. São muitas... A primeira cela é a dos pensamentos. Aqueles que não pedimos para ter, que nos invadem, mas, ainda assim, são criados por nós. Aprisionam-nos na medida em que, por causa deles, perdemos a nossa energia vital; aquela energia que nos poderia levar à concretização de coisas maiores. Há a cela do medo (que é, frequentemente, um “anexo” da primeira). O medo de dizer, o medo de responder, o medo de agir. O confinamento nessa cela impede-nos de ir em busca do novo, de explorar novas possibilidades, ...

Sétimo e último encontro com o escritor

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- Quem é a Ana e quais são os seus valores? - Pergunta densa... - Não é a pergunta pela qual começam todos os livros de autoajuda? - Já não leio livros de autoajuda... - Ainda assim... consegue responder? - Por onde começar? - Pelo princípio. - Fui uma criança que viu, ouviu e sentiu coisas que não deveria ter visto, ouvido e sentido. - Depois... - Enquanto adolescente, desenraizaram-me e continuei a ver, ouvir e sentir o que não devia. - E depois? - Já adulta, vivi tempo de mais a ilusão de poder construir uma vida sem essas cenas de vida, mas, inconscientemente, atraí-as de novo para mim. Voltei a ver, ouvir e sentir o que não devia... - A história continua? - Quando, recentemente, tomei consciência desta repetição de ciclos, comecei, finalmente, a mudar o meu destino. Ainda não deixei de ver, ouvir e sentir aquelas cenas, mas estou a caminho. Ironicamente, têm sido os meus guias, os meus critérios na definição dos meus valores. E os meus valores são, afin...

Sobre a responsabilidade de sermos felizes

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Não é a primeira vez que escrevo sobre um livro do Luís Portela. Com este seu último Da Ciência ao Amor, confirmo que, para mim, Portela é um dos melhores autores portugueses sobre desenvolvimento pessoal (não sei se o autor gostaria desta catalogação…). Há conceitos muito poderosos neste livro, conceitos que nos levam à reflexão da responsabilidade que temos sobre a nossa felicidade. O primeiro (e não tenho a pretensão de elencar prioridades) é a necessidade de assegurarmos a nossa higiene mental. A quase-obrigatoriedade de pararmos para fazermos balanços de vida, para dedicarmos alguns minutos do nosso dia à introspeção, para nos autoconhecermos. Uma ideia que se repete ao longo desta reflexão é a da força do pensamento; uma força que acaba inevitavelmente por formatar o que nos acontece a seguir. Contudo, o autor insiste de diversas formas sobre o livre-arbítrio que igualmente temos de escolher os pensamentos que queremos, de selecionar os construtivos e rejeitar os des...

Ana, a Doadora

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De uma forma ou de outra, os livros – ficcionais ou não – levam-nos a viajar e a refletir sobre um certo número de temáticas. Contudo, são raros os que têm o mérito de nos pôr a pensar criticamente sobre nós próprios. Não foi difícil encontrar o meu perfil de doadora, logo nas primeiras páginas. Antes de fazer o teste online que Adam Grant sugere, já tinha uma noção clara do peso que o meu lado “giver” tem sobre o tomador e o compensador. Desde que me identifique com os seus valores, a pertença a um grupo sempre foi de extrema importância para mim: contribuo com o meu trabalho, o meu tempo, coordeno, mentorizo e nunca frustro as expetativas dos meus pares. Depois de elencar os benefícios de se ser doador, o autor chama duramente a atenção para os perigos: exaustão, desilusão, a frustração de nunca chegar ao topo… Mais uma vez, encontrei-me… O desafio é então o de encontrar o sempiterno equilíbrio. Ser-se doador, sim, ma non troppo . Há que abrandar o ritmo, e jamais – ...

Daqui a nada… Gostava de escrever assim

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Sobre o primeiro romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, apetece-me derrubar ideias pré-concebidas. Por exemplo, a ideia de que só conseguimos escrever sobre o que vivenciamos, sobre o que existe no nosso mundo. Como é que se escreve desta maneira, aos 20 anos, sobre a desilusão, a solidão, o silêncio? Ou sobre os despojos de uma guerra na qual não se combateu? Diz o próprio que faz como no cinema: põe-se na pele da personagem, velha ou nova, fútil ou profunda, e “interpreta” um papel. Pode ser. Não me posso esquecer de experimentar. Esta mestria da escrita aos 20 anos é desarmante e interpela as nossas capacidades. E eu, que até conheço as últimas obras do autor, encontro nesta mais genuinidade, menos arranjos e composições. Agrada-me. Gosto da técnica de pôr cada uma das personagens a falar na primeira pessoa, alternando-as por capítulos. Contudo, questiono apenas o facto (demasiado gritante) de as 3 personagens serem igualmente geniais e expressarem o que lhes vai n...

São loucos os escritores

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Termino este livro um dia depois do Dia Internacional da Memória do Holocausto. Este período da história sempre me interpelou e me deixou marcas: do Diário de Anne Frank, passando pel’A Lista de Schindler, e culminando na minha viagem à Polónia em 2009 e consequente visita ao campo de concentração de Auschwitz. Li e vi (nomeadamente, aquando de uma visita recente à Casa Anne Frank) muitos testemunhos, e falei com pessoas que privaram com protagonistas (Aristides de Sousa Mendes, por exemplo). Testemunhos de quem viveu ou esteve próximo do epicentro. Os livros de história relatam, irão continuar a relatar, para que nunca se esqueça… E há a ficção. Há o pegar num trecho dessa história, uma circunstância precisa (um massacre numa aldeia, vizinhos contra vizinhos), e trazê-lo à boca de cena, dar-lhe uma vida novamente, povoá-lo de personagens decifradas, e aí colocar também uma história de amor. E o ficcionista-autor é português, e pega em toda esta matéria, apropriando-s...

Sobre Esquecimento e Perdão

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Do último livro de Tolentino Mendonça poderia destacar várias passagens. Os seus escritos interpelam-me sempre de forma avassaladora. Gosto da nudez, da humildade, das referências literárias e cinematográficas que me levam mais longe. Contudo, é sobre esta citação do autor que eu gostaria de refletir hoje: “O gesto de esquecer e de deixar para trás também é uma decisão espiritual necessária. Há um passado que condena e, se não nos distanciarmos dele, se não dermos o salto que a fé nos pede, não seremos capazes de recomeçar.” Independentemente do teor do que temos ou queremos esquecer, concordo que seja uma decisão espiritual útil. Espiritual porque deve partir de nosso âmago, sem intromissões, sob pena de se transformar em mais uma tentativa frustrada. Necessária porque se impõe uma depuração, uma higiene emocional que, se não for feita amiúde, nos polui e embarga a existência. O passado deve ser aquele filme a preto e branco que apenas revisitamos para lembrar mensag...