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Café Correia

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Felizmente, gostas de conduzir em Nacionais. Eu não gosto, mas gosto de parar em sítios pitorescos, seja para tirar fotos, seja para tomar um café e ir à casa de banho. Lembras-te do Café Correia? Aquele que ficava numa terra cujo nome existe em vários distritos do nosso Portugal? Nem sei por que pergunto. É óbvio que te lembras. Tu é que não te ias lembrar?! Até aposto que te lembras do nome da terra! Bem, mas voltemos ao Café Correia. Estávamos a precisar desesperadamente de um café e, eu, de ir à casa de banho. Conhecíamos, por já lá ter estado, um café no nosso percurso e dirigimo-nos lá. Estava fechado. Perguntaste por um café aberto a um transeunte e este indicou-te o Café Correia, a 100 metros dali. Estacionámos logo a seguir a uma curva que deve ter o epíteto de “curva da morte” como 8974 curvas em Nacionais portuguesas (razão pela qual não gosto de conduzir nelas). O café ficava do outro lado da estrada. Atravessámos (o ato mais perigoso do dia) e entrámos no dito café. Ou, me...

Fait-divers 1

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Era empregado bancário, usava fato e gravata, parecia importante. Naquele dia, passaram-lhe a chamada: - Tens de vir depressa, o avô está morto, não sei o que se passou. Quando chegou a casa dos pais, o cenário era perturbador: a mãe chorava descontroladamente e a sobrinha parecia estar em estado catatónico. O pai, estendido no chão da sala, parecia morto, de facto. Não foi capaz de lhe tocar. Ligou para o 115, respondeu às perguntas sem vacilar, só queria que viessem rapidamente. Na verdade, não se lembra do tempo que demoraram a chegar, mas pareceu-lhe tempo a mais. Tudo lhe parecia a mais. Sobretudo as recomendações: - Não toque em nada. Depois da emergência médica foi a espera pelo Médico Legista. Mais uma longa espera. Demasiado longa.   Declarado o óbito, seguiu-se a espera pelos senhores da agência funerária.   Tudo somado, pareceram-lhe várias horas, não se lembra exatamente de quantas. Foram muitas, demasiadas. Quando chegaram os dois senhores de fato preto, chegou co...

O Apartamento

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  A Marta queria vir comigo. Disse-lhe que não, que tinha de ir sozinha. Subi os três lanços de escadas, rodei a chave 4 vezes e mergulhei na penumbra. Instintivamente, procurei o interruptor na parede, carreguei... nada. Era óbvio que a eletricidade tinha sido cortada. Apesar dos anos, ainda tinha fresco o mapa mental daquele apartamento. Se fosse em frente, encontraria a sala de jantar; teria de ir até ao fundo para chegar à janela e abrir a persiana. Fui às apalpadelas, pelo lado direito. Nem me lembrei da lanterna do telemóvel. Encontrei o que queria. Tive de fazer uma certa força na correia da persiana que estava emperrada. O sol de setembro agrediu-me as vistas recém-habituadas à escuridão. A sala estava igual: o móvel de sala gigante, repleto de cristais e dos livros do meu tio, a mesa e as 6 cadeiras pesadonas de madeira escura. Voltei ao corredor, agora com alguma luz, e passei à cozinha. Fiz o mesmo procedimento de abertura de persianas e de reconhecimento do local. Segui...

O Anfitrião

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Introito (para ti, no dia do teu aniversário, porque te amo)   Na noite de 14 de abril de 1912, um navio com 2208 pessoas a bordo, com destino a Nova Iorque, embateu num icebergue, no Atlântico Norte. 1496 pessoas morreram. 712 sobreviveram. 712 pessoas conseguiram chegar a terra firme, deixando para trás longas horas de horror, carregando nos bolsos algumas joias de família (o que foi possível resgatar “de valor” daquele naufrágio) e a convicção de que as suas vidas ficariam suspensas naquela noite. Todos conhecemos a história, nem que seja por causa do filme de Cameron que retratou a história de amor da aristocrática Rose e do jovem artista Jack. Para quem não viu o filme, aposto que conhecem a música My Heart Will Go On imortalizada por Céline Dion. Em 2009, morreu a última sobrevivente dos 712. A última pessoa com a propriedade de poder contar a sua experiência na primeira pessoa. Contudo, continuamos – e continuaremos – a ouvir histórias inspiradas naquela noite. 712 pessoas t...

Sétimo e último encontro com o escritor

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- Quem é a Ana e quais são os seus valores? - Pergunta densa... - Não é a pergunta pela qual começam todos os livros de autoajuda? - Já não leio livros de autoajuda... - Ainda assim... consegue responder? - Por onde começar? - Pelo princípio. - Fui uma criança que viu, ouviu e sentiu coisas que não deveria ter visto, ouvido e sentido. - Depois... - Enquanto adolescente, desenraizaram-me e continuei a ver, ouvir e sentir o que não devia. - E depois? - Já adulta, vivi tempo de mais a ilusão de poder construir uma vida sem essas cenas de vida, mas, inconscientemente, atraí-as de novo para mim. Voltei a ver, ouvir e sentir o que não devia... - A história continua? - Quando, recentemente, tomei consciência desta repetição de ciclos, comecei, finalmente, a mudar o meu destino. Ainda não deixei de ver, ouvir e sentir aquelas cenas, mas estou a caminho. Ironicamente, têm sido os meus guias, os meus critérios na definição dos meus valores. E os meus valores são, afin...

A Casa

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Já tinha passado dos 40 e estava já divorciada quando o meu pai comprou o casarão. Fui visitá-la com a minha mãe numa tarde de outubro, já o chão se cobrira de folhas cor de fogo e a temperatura apelava à lareira. Nunca percebi e nunca me explicaram os contornos daquela compra. A casa estava parcialmente mobilada, parecendo estar parcialmente habitada, não o estando. Era gigantesca. Daquelas construções de outros tempos, feitas para durar, com compartimentos amplos, nos quais se podia dançar a valsa de Strauss. A minha mãe passou a visita toda a chamar o meu nome e a proferir exclamações: - Laura! Anda ver! Que lindo! - Este vai ser o quarto da Helena! E aquele o do André! - Olha-me estas credências! Parecem ter um dossel! - E estes espelhos! Olha-me estas molduras em talha dourada! Parecem as da basílica do Santo Cristo! - Virgem Santíssima! (...)  A minha cabeça rodava de tanta informação. Por que teria o meu pai comprado aquela casa entre a serra e o mar de...

Circo de Feras

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  Saiu do seu lamento silencioso para o jardim. O cheiro a terra molhada pelas primeiras chuvas foi um bálsamo. Tentara habituar-se à solidão com rotinas egocêntricas. Rituais de beleza, explorações literárias, cinematográfica e musicais, entregas meditativas... Mas as memórias de um passado imperfeito, porque longínquo, arruinavam-lhe a persistência. Os filhos pequenos, o marido vivo, a desarrumação e os sons indistintos. Os aniversários que lotavam a casa, os réveillons sem hora de deitar, a montanha de papel de embrulho pelo Natal. A velocidade das horas não para no apeadeiro dos corações moles, não tem piedade das lágrimas. Nos momentos de maior desespero, dava por si a questionar-se quando e onde teria perdido o controlo. Chorava, sempre em silêncio, deitada de lado, na cama na qual nunca conseguira ocupar o espaço central. Apesar de tudo, tinha procurado encaixar-se na definição de “boa pessoa”. Uma menina bem-comportada, filha de pais humildes, a quem o casamen...

Casa de Memórias

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Apaixonei-me pelas tuas memórias. Pela tua irritante capacidade de fixar o tempo. Com palavras, conseguias fotografar o espaço e o sentimento. Sempre detestei em silêncio os adeptos do Carpe Diem, os esquecidos, os alienados do passado. Os que não choram ao ver fotos antigas, que não têm paciência para falar com os mais velhos na fila do supermercado, que se desfazem da roupa usada com facilidade. Naquele dia de novembro, o meu prumo desabou. Eu, tão cheia de mim, de certezas, de mentiras. Tu, à minha frente, tão cheio de aparente calma, serenidade, incertezas. Esqueci-me do tempo; deixei-me embalar na tua voz. Mas tinhas hora marcada e eu fiquei sem chão. Os dias (as semanas, os meses e os anos...) seguintes foram estranhos. Passei-os a abrir precedentes, a quebrar as regras do meu código, a ser genuinamente feliz. Acho que, sem querermos e sem procurarmos, descobrimos a tal fórmula mágica. O código secreto da harmonia e da plenitude. O dom de tirarmos as palavra...

Imprevistos (III)

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As pessoas gostam de recriar personagens e histórias, transferindo a autoria para quem dificilmente a exigirá. Há anos que me divirto à custa dessas mentes de fértil imaginação e mau gosto. Se poderia esclarecer? Dar a minha versão? A troco de quê? As mulheres sem história não têm tempo  de antena, são reduzidas a vizinhas antipáticas e a colegas de trabalho snobes.  Esta aura de mistério que as pessoas me acrescentaram dá-me carta branca para não ir às reuniões de condomínio, dispensa-me das conversas à porta do prédio ou nos patamares e da sardinhada de S. João cá do bairro. As fraquezas de um indivíduo tocam-nos sempre mais do que as suas qualidades. Esta é a verdade inabalável das relações humanas. Pessoas genuinamente felizes não existem ou transportam consigo um segredo de estado que lesa a Pátria inteira. Apenas toleramos os infelizes. A pena é o sentimento (e o desporto) preferido dos portugueses. Não deixam de ser criativas – ou, pelo contrário, pa...

Imprevistos (II)

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Lá vem ela. Não falha. Sempre à mesma hora. Magrita. Sempre aprumada. O meu homem diz que, se ela vivesse numa mansão, já teria sido assaltada: as rotinas dela são fáceis de estudar. Não se lhe ouve nada: nem o arrastar de uma cadeira, nem o aspirador. A Judite do 3.º frente diz que ela é maníaca por limpeza. Deve passar o chão a pano todos os dias, por causa do pelo dos gatos. Não é de conversas, mas cumprimenta sempre. Não é de mostrar os dentes, mas é afável e educada. Contudo, não dá margem; é assim há mais de 15 anos; desde que se mudou para cá. No outro dia, a Carla da cabeleireira, da Ritus’, que tem uma prima que é da terra da mãe dela, contou lá no salão que ela já foi uma senhora. Muito bem casada, ao que parece, com um empresário da Capital. Mas que caiu em desgraça. Gostava da pinga e isso custou-lhe a vida de um filho pequeno. Uma distração. Uns, dizem que foi numa piscina, outros, de uma varanda. Coitada... E também ficou sem marido. Parece que a respons...

Imprevistos (I)

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Entrou no pequeno apartamento às 19 horas e logo os dois felinos se precipitaram ao seu encontro. Como em todos os dias úteis (se é que se podia atribuir esse qualificativo aos seus dias), saiu do trabalho às 18h03 (não fosse o patrão acusá-la de sair antes da hora contratual), dirigiu-se em passo rápido para a Central de Camionagem onde chegou às 18h11, apanhou o autocarro das 18h15 e chegou ao destino às 18h50, mais coisa, menos coisa. A diferença até às 19 horas, ou seja, até ao momento da entrada no dito apartamento dos felinos, corresponde à duração do percurso entre a paragem do autocarro e a sua residência habitual. Se chegasse mais tarde, tal significava que o referido autocarro das 18h15 se tinha atrasado, ou na partida, ou no percurso. Alda não gostava de imprevistos. Mecanicamente, descalçou os botins, arrumou-os, alinhados, na sapateira da entrada, pendurou o Kispo cor de tijolo, calçou as pantufas, foi ao quarto pousar a mochila e dirigiu-se à cozinha onde enfiou o...

Necrologia

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Deixei de ser escrava dos ponteiros do relógio desde que vim para aqui. Acho até que rejuvenesci, apesar do ano inscrito na minha certidão de nascimento me parecer tão longínquo e as minhas memórias de infância serem todas a preto e branco. Não me lembro de quem ganhou o concurso de Scrabble na semana passada (se calhar, até fui eu), mas lembro-me do vestido que trazia no dia em que te conheci. Aqui, os dias sucedem-se, iguais, e eu à espera que me venhas buscar... Procuro enchê-los com as coisas de que gosto e que tu conheces bem: estendo o tempo a combinar as minhas roupas (não que queira agradar a alguém, pois nem a ti procurei agradar algum dia), leio vários livros ao mesmo tempo (passando uma hora em cada um; sabes o quanto detesto a monotonia), faço longos circuitos no jardim acompanhada dos meus podcasts favoritos (apesar da insistência das auxiliares para não ir quando está mau tempo), encho as linhas deste caderno... Não estás a ser bom para mim. Sabes que nã...

Carta à filha quase de saída

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12 de junho de 2018 Minha querida filha, Sou eu que faço anos, mas és tu que estás de parabéns! O último ano tem sido de grandes desafios e tu superaste-os brilhantemente! Orgulho-me muito de ti: da tua humanidade e generosidade (para com amigos e animais), da tua serenidade face à adversidade, do teu sentido ético, a tua dedicação a causas (eco-escolas) e projetos (teatro), da tua resiliência, do teu sentido de humor. Por todos estes motivos (e mais uma longa lista deles), tens sido uma real inspiração para mim. Não só porque sinto que tenho a obrigação de me manter firme, por ti e para ti, como também porque tens sido para mim um exemplo, uma referência. Um exemplo de coragem, de amor e amizade. Temos todos a obrigação de sermos felizes, e a responsabilidade dessa caminhada é exclusivamente nossa. Posso ter aprendido isso nos muitos livros que leio e que me dão momentaneamente a ilusão de um mundo melhor, mas é ao observar-te diariamente que consolido essa co...

Óleo de Cedro

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Voltei hoje àquela praia após quinze anos. Assim que pus o primeiro pé na areia e a minha vista alcançou as barraquinhas, lembrei-me logo dela. Éramos vizinhos de praia. Reservávamos as barracas de um ano para o outro para conseguir os melhores lugares. Apesar de um ano inteiro sem contacto, sabíamos que, logo no primeiro dia, a menina Idalina - Lina para os amigos - lá estaria. Chegávamos por volta das nove e meia, eu, a minha mãe a minha irmã. Hei-de morrer sem ter visto o meu pai pisar a areia e ir ao mar. Quando chegávamos, a Lina já lá estava: - Gosto dos primeiros movimentos na praia – Dizia ela. Embora bastante mais novo, acho que tinha uma paixoneta pela Lina. Fingia não prestar atenção àquela “conversa de mulheres”, mas sorvia cada comentário, cada máxima, cada ritual, cada cheiro. Vinha sempre sozinha, nunca falou muito do resto da sua vida e dos restantes onze meses do ano. Essencialmente, “trabalhava para o bronze”: ia ao mar em linha quase recta, não fosse pelas ...