A Casa da Felicidade

No dia do acontecimento que hoje partilho convosco, eu deveria ter uns 6 anos de prática notarial. Já tinha arrecadado alguma experiência em procurações, inventários, testamentos, reconhecimentos, certificações e, claro, escrituras de compra e venda de imóveis. Apanhei, para o bem e para o mal, aqueles anos loucos do mercado imobiliário que antecederam “a bolha”. Era rara a semana em que o cartório não tinha uma escritura em agenda. Mas desta, em concreto, nunca me esqueci.
Era uma manhã de março e chovia. Como é meu apanágio, entrei na sala 5 minutos antes da hora marcada (era o primeiro ato do dia), verifiquei computador e ligação ao ecrã secundário e abri o ficheiro com a minuta da escritura. À medida que os outorgantes foram chegando, fui cumprimentando e solicitando documentação, para não perder tempo. O casal de vendedores sentou-se à minha esquerda. O comprador, o pai deste (munido de uma procuração em representação da noiva do primeiro) e o gestor de conta do banco (por ser uma compra com recurso a empréstimo) sentaram-se à minha direita.
Ao contrário do que acontecia na maioria das escrituras, pautadas por conversas avulsas e boa disposição de parte a parte, reinava um silêncio sepulcral e incómodo. Fui tentando quebrá-lo pedindo alguns esclarecimentos e documentos ainda em falta. À medida que a minuta ganhava forma e que os intervenientes iam confirmando os dados da mesma abanando afirmativamente a cabeça, fui-me apercebendo do nervosismo crescente da vendedora; batia nervosamente o pé e, irrequieta na cadeira, suspirava; por duas vezes, o marido colocou a mão no joelho da perna em percussão, na tentativa de parar o batuque.
Quando, finalmente, a escritura foi considerada em conformidade por todos, após leitura ritmada, imprimi os exemplares a assinar. Como sempre faço, dei o documento a assinar pela direita. Quando este chegou às mãos da vendedora, percebi que a mão que segurava a caneta tremia; ela virou-se para o marido, os olhos marejados, e perguntou “assino?”. A resposta foi um sorriso triste e uma expiração profunda. Assinou.
Seguiu-se a parte chata do pagamento dos impostos respetivos pelo comprador. Dez minutos em que o pai do comprador tentou fazer piadas sobre o facto de eu estar a depenar o filho, em que o vendedor marido louvou a localização do imóvel e fez perguntas sobre as obras que o comprador previa fazer na moradia. A mulher continuava muda e distante.
Finalmente, dei por concluído o ato, levantamo-nos e começaram os apertos de mão. Quando a vendedora ficou de frente para o comprador, estendeu a mão, olhou-o nos olhos e disse algo que jamais esquecerei:
- Estime-a bem, por favor. Para nós, foi a casa da felicidade...
 
Muitos anos passaram, entretanto. Continuo a fazer algumas escrituras e, invariavelmente, no final de cada ato, dou por mim a interrogar-me se terei contribuído para uma casa da felicidade. 




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