Papel Secundário

O caminho tem sido sinuoso.

Quando penso estar quase a alcançar a meta, sou reenviada para a casa de partida.

São já 3 décadas desta luta e começo a ficar cansada.

Cansada das tentativas. Dos novos projetos. Das desilusões.

Por mais que eu me tente convencer de que eu não sou responsável por esses fracassos, não consigo deixar de pensar nas muitas pessoas que cruzaram estas minhas batalhas e que arrastei comigo, nesses sonhos vãos.

O pior é que começo a duvidar das minhas capacidades (ou deveria dizer competências?).

Serei assim tão boa profissional? Tão rigorosa? Tão organizada?

Não serei antes uma fraude? Uma ilusionista?

Uma impostora.

Na verdade, hoje, quero muito pouco da vida profissional.

Gostaria de ter um quotidiano tranquilo, sem sobressaltos, sem confusões.

Sem longas viagens. Sem precariedade. Sem interrogações.

Sinto que desperdicei tempo, oportunidades, dinheiro em prol de um sonho caprichoso e sem sustentação.

Não estará na hora de eu acordar desse sonho?

De virar a página e de me dedicar ao que é seguro?

De, de uma vez por todas, deixar de acreditar em contos de fadas?

Se ao longo deste percurso não consegui mobilizar nem convencer ninguém desta empreitada, talvez esteja na hora de eu admitir a falência da mesma.

Talvez esteja na hora de esta minha personagem bater com a porta e procurar novos papéis. Papéis que sejam credíveis, palpáveis e ajustados àquilo que sou, efetivamente.

Papéis que apenas dependam do meu desempenho e que pouco ou nada peçam a outros atores. Papéis que eu possa controlar, monitorizar, avaliar...

Papéis que eu possa deixar à porta de casa e que não se imiscuam na minha paz familiar, no lar que tanto amo.

Quero, hoje, mais do que nunca, um papel secundário.




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