Dez Novembros


Aquelas semanas de novembro deixaram uma marca na minha vida como pegada na lua.

Começou com a viagem a Madrid. Lembro-me que estava bom tempo para novembro e que trocámos mensagens que terminavam com beijos doces e chantilly. A mala ia carregada de esperanças de negócios fáceis e voltou sem estes, mas com o coração mais aconchegado.

De regresso a Portugal, somos acolhidas com a notícia do sangrento ataque ao Bataclan. As inexplicáveis imagens entravam pelas nossas casas adentro, deixando pavor e incompreensão. Aquilo tocou-me e, durante dias, dormi pior do que já dormia. 

Na semana seguinte, fui a França em trabalho. O tempo piorou, entretanto. Nas poucas voltas que consegui dar, deparei-me com rostos tristes e medrosos. Os escaparates coloriam-se de títulos garrafais a remeter para a tragédia. Comprei a Paris Match para memória futura. Como se fosse possível esquecer...

Lembro-me que também trocámos mensagens. Recomendavas prudência. Dizia-se que os ataques não ficariam por ali e eu estava em terreno vulnerável.

Lembro-me que regressei num domingo. O nosso primeiro encontro seria dali a 3 dias. Fui sem expetativas, mas com o sorriso apatetado que não mais me largou desde que a nossa troca de mensagens saiu do âmbito musical e literário e nos começámos a desvendar.

Aquele que deveria ser “um café de 10 minutos” transformou-se numa longa conversa que daria origem à nossa história de amor.

Desde aquele dia de novembro, a minha vida nunca mais foi a mesma; soube-o de imediato, assim que ouvi a tua voz, assim que derrubei nervosamente a garrafa de plástico.

Muitos acontecimentos houve, entretanto. Desencontros, frustrações, inseguranças.

Volvidos 10 novembros, não posso deixar de recordar esse primeiro, porque especial, genuíno, cinematográfico.

De uma certa forma, sinto que nasci nesse dia de novembro. Nasci para um nós que julgava impossível.





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