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Correr e Chorar

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É possível correr e chorar ao mesmo tempo? Os meus amigos das maratonas dirão que sim, que - quando se chega aos 20 km - as dores são tantas que já nem se descortina a origem (músculos, articulações, ossos, tanto faz) e lá se soltam umas lágrimas. Bem, não é desse choro de que falo. Não é o choro das dores, da aflição, da impotência. Falo do choro da emoção, da beleza sentida, da esperança de que há melhor. Esta manhã saí para correr cedo, nasciam os primeiros raios de sol. Para não comprometer a logística familiar, decidi-me por um percurso próximo de casa; as paisagens não são extraordinárias, pois trata-se de uma zona industrial, mas de madrugada tudo é lindo, sobretudo o silêncio, a imobilidade das coisas e a inexistência de almas físicas. Sorteei o podcast de companhia. Calhou-me “O Amor É” com o Júlio Machado Vaz e a Inês Meneses; há muito que os ouço e que a sua receita de clarividência, cumplicidade e tranquilidade me deleita. A conversa era dedicada a uma entrevi...

Cabine fotográfica

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Lembras-te da máquina fotográfica do Dallas? Íamos para lá aos domingos à tarde com as moedas retiras à curta semanada e divertíamo-nos à grande. Parece que estou a vê-la, a pequena cabine de 1 metro quadrado, com uma cortina bege e, no interior, um pequeno banco de estrutura metálica e tampo de madeira, igual ao que havia no centro de saúde, quando íamos fazer o Raio X para a matrícula da escola. Enquanto as outras miúdas do bairro iam para o quiosque folhear as revistas das celebridades e dos resumos dos episódios das telenovelas brasileiras, nós íamos para a máquina e encenávamos as melhores poses. Para nós, tudo aquilo era mágico, dos minutos de espera até que a máquina ficasse livre, ao momento em que podíamos finalmente pegar e tocar naquelas tiras de instantes. Tudo era combinado ao pormenor: a mesma cor da parte de cima da roupa, o penteado, o destino do olhar. Aliás, pergunto-me até hoje porque combinávamos a cor da camisola, já que as fotos saiam a preto e b...

Águas de Março: Sobre Relações Humanas

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“Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa.” Clarice Lispector Acho que nunca tinha dissertado muito sobre este assunto. Na verdade, penso até que, de alguma forma, sempre foi para mim um tema tabu… Cresci numa família próspera em conflitos familiares, o que me fez persistir na vontade de querer fazer diferente. No entanto, nestes últimos 6 meses em que estive ausente por cá, este tema tem-me ocupado os neurónios… Talvez porque foram meses de algumas mudanças e as mudanças trazem sempre consigo algumas verdades sobre a natureza humana. Fazer escolhas em prol do nosso bem-estar implica sempre deixarmos algumas pessoas pelo caminho ou que estas saiam de livre vontade. Ainda não percebi porquê, mas lido mal com essas saídas, como se essas pessoas, mesmo que me tenham magoado, ao saírem, levassem consigo uma parte da minha...

O Peso da Condição

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“As relações têm um caráter prioritário para todos nós, a nossa suscetibilidade face aos outros deixa-nos vulneráveis a todo o tipo de dano e, em casos extremos, à possibilidade da morte.” Donna Hicks in Dignidade Apercebi-me rapidamente que não estavas bem. Não que as circunstâncias fossem propícias a outro estado de espírito, mas tinha esperança de te encontrar melhor. Egoísmo meu, seguramente: precisava que estivesses bem. Mas, a verdade, é que não estavas. Notei-te feliz por me veres. Muito feliz, até. Como se eu fosse uma lufada de ar fresco no teu luto. Foi quando entrámos no carro – o mesmo de tantas aventuras, de tantos quilómetros sem destino – que percebi. Ainda nem tínhamos saído do parque de estacionamento e já estavas a justificar a tua falta de desenvoltura: que já não conduzias há 3 anos por causa das gravidezes de risco, que o Carlos te levava a todo o lado e que se metia muito com a tua forma de conduzir. Fomos ao centro histórico, como antigamente, b...