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Reverdecer

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Caixas de variados doces em cima da mesa da sala, aquele cheiro a calda de açúcar… A azáfama familiar, o estrear de roupa nova, as limpezas profundas. Nunca esquecerei as Páscoas no Minho, em casa dos meus avós maternos. A visita pascal era o momento alto. Nada podia falhar: o tapete de flores à porta de casa, o vinho do Porto e o pão-de-ló, o envelope da côngrua. Aquelas segundas tinham uma magia quase infantil. A prova-lo, o facto de que nunca mais me esqueci delas ou do cheiro a calda de açúcar. Uma geração se extinguiu, uma casa foi desmantelada, outras famílias se constituíram e as Páscoas mudaram. Hoje, é em casa dos meus pais. Felizmente, ainda temos direito à visita pascal e ainda fazemos o tapete de flores à porta de casa. Ouve-se a mensagem, beija-se a cruz, dão-se as amêndoas aos miúdos da comitiva, entrega-se o envelope e já está. Se pensarmos no sentido da Páscoa, pensamos em ressurreição, em renovação, em novas oportunidades, em recomeços. Se Ele ressuscito...

Ana, a Doadora

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De uma forma ou de outra, os livros – ficcionais ou não – levam-nos a viajar e a refletir sobre um certo número de temáticas. Contudo, são raros os que têm o mérito de nos pôr a pensar criticamente sobre nós próprios. Não foi difícil encontrar o meu perfil de doadora, logo nas primeiras páginas. Antes de fazer o teste online que Adam Grant sugere, já tinha uma noção clara do peso que o meu lado “giver” tem sobre o tomador e o compensador. Desde que me identifique com os seus valores, a pertença a um grupo sempre foi de extrema importância para mim: contribuo com o meu trabalho, o meu tempo, coordeno, mentorizo e nunca frustro as expetativas dos meus pares. Depois de elencar os benefícios de se ser doador, o autor chama duramente a atenção para os perigos: exaustão, desilusão, a frustração de nunca chegar ao topo… Mais uma vez, encontrei-me… O desafio é então o de encontrar o sempiterno equilíbrio. Ser-se doador, sim, ma non troppo . Há que abrandar o ritmo, e jamais – ...

Daqui a nada… Gostava de escrever assim

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Sobre o primeiro romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, apetece-me derrubar ideias pré-concebidas. Por exemplo, a ideia de que só conseguimos escrever sobre o que vivenciamos, sobre o que existe no nosso mundo. Como é que se escreve desta maneira, aos 20 anos, sobre a desilusão, a solidão, o silêncio? Ou sobre os despojos de uma guerra na qual não se combateu? Diz o próprio que faz como no cinema: põe-se na pele da personagem, velha ou nova, fútil ou profunda, e “interpreta” um papel. Pode ser. Não me posso esquecer de experimentar. Esta mestria da escrita aos 20 anos é desarmante e interpela as nossas capacidades. E eu, que até conheço as últimas obras do autor, encontro nesta mais genuinidade, menos arranjos e composições. Agrada-me. Gosto da técnica de pôr cada uma das personagens a falar na primeira pessoa, alternando-as por capítulos. Contudo, questiono apenas o facto (demasiado gritante) de as 3 personagens serem igualmente geniais e expressarem o que lhes vai n...

O Véu e os Cabelos

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Eras brilhante! Boa aluna, tranquila, culta, falavas pouco, mas sem hesitações; parecias não ter dúvidas sobre coisa nenhuma. Todas nós te envejávamos secretamente. Parecias não ter (não tinhas) aquelas questões existenciais que nos tolhiam os intervalos das aulas e os serões: se as nossas paixões avassaladoras eram correspondidas, como íamos mandar a próxima mensagem subliminar ao alvo das nossas insónias, que roupa iríamos vestir no sarau da escola, como íamos convencer os nossos pais a deixar-nos sair no próximo sábado à noite, se devíamos optar por unhas de gel ou acrílicas… Sabíamos-te de uma cultura e credo diferentes, mas não entendíamos (nem queríamos entender) os meandros da diferença. Aquele véu que nunca tiravas parecia envolver-te numa aura de intocabilidade. Nas vésperas do Bataclan querias ir para medicina. Tinhas tudo o que era preciso. No rescaldo do Bataclan, fizeste um técnico-profissional de cabeleireira. O teu véu denunciar-te-ia. Eu e todas aq...

São loucos os escritores

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Termino este livro um dia depois do Dia Internacional da Memória do Holocausto. Este período da história sempre me interpelou e me deixou marcas: do Diário de Anne Frank, passando pel’A Lista de Schindler, e culminando na minha viagem à Polónia em 2009 e consequente visita ao campo de concentração de Auschwitz. Li e vi (nomeadamente, aquando de uma visita recente à Casa Anne Frank) muitos testemunhos, e falei com pessoas que privaram com protagonistas (Aristides de Sousa Mendes, por exemplo). Testemunhos de quem viveu ou esteve próximo do epicentro. Os livros de história relatam, irão continuar a relatar, para que nunca se esqueça… E há a ficção. Há o pegar num trecho dessa história, uma circunstância precisa (um massacre numa aldeia, vizinhos contra vizinhos), e trazê-lo à boca de cena, dar-lhe uma vida novamente, povoá-lo de personagens decifradas, e aí colocar também uma história de amor. E o ficcionista-autor é português, e pega em toda esta matéria, apropriando-s...