Mensagens

Necrologia

Imagem
Deixei de ser escrava dos ponteiros do relógio desde que vim para aqui. Acho até que rejuvenesci, apesar do ano inscrito na minha certidão de nascimento me parecer tão longínquo e as minhas memórias de infância serem todas a preto e branco. Não me lembro de quem ganhou o concurso de Scrabble na semana passada (se calhar, até fui eu), mas lembro-me do vestido que trazia no dia em que te conheci. Aqui, os dias sucedem-se, iguais, e eu à espera que me venhas buscar... Procuro enchê-los com as coisas de que gosto e que tu conheces bem: estendo o tempo a combinar as minhas roupas (não que queira agradar a alguém, pois nem a ti procurei agradar algum dia), leio vários livros ao mesmo tempo (passando uma hora em cada um; sabes o quanto detesto a monotonia), faço longos circuitos no jardim acompanhada dos meus podcasts favoritos (apesar da insistência das auxiliares para não ir quando está mau tempo), encho as linhas deste caderno... Não estás a ser bom para mim. Sabes que nã...

Rua das Flores

Imagem
Um dia, fui parar acidentalmente àquela rua. Se é que ainda se pode dizer que as coisas nos acontecem acidentalmente… Foi há mais de duas décadas. Calcorreava eu as ruas do Porto, na inconsciente esperança do reconhecimento geográfico pela sola dos sapatos. Percorri a rua até à Ribeira, tão depressa quanto me foi possível; além da degradação urbanística e da escuridão, depressa percebi que aquela artéria era local de intenso tráfico de drogas. Mais de 20 anos volvidos, o meu trabalho levou-me novamente à rua, a um serviço municipal que, entretanto, lá se instalou. Completamente reabilitada e, agora, exclusivamente pedonal, a rua que - em tempos de D. Manuel I - fora de mercadores e ourives, está irreconhecível e demorei algum tempo a estabelecer a ligação. Artistas de rua, saboneterias, chocolatarias, hotéis, restaurantes e cafetarias de charme (este último qualificativo aplicando-se a todos os locais enumerados). Só as lojinhas de souvenirs em cortiça e com as camis...

Atenção

Imagem
Querem-na porque lhes falta a energia do Amor. Do amor que não dão e do amor que não recebem. E a atenção que solicitam e que, eventualmente, recebem, dá-lhes a ilusão da importância. Uma importância que não têm, afinal, porque ninguém é verdadeiramente importante sem amor. Viseu, 18 de novembro, o dia em que me foi ensinada a diferença entre ter atenção e ser amada.

10 anos de Vozes Femininas!

Imagem
Há dias, este meu blogue fez 10 anos. Apetece-me hoje refletir sobre o seu percurso, sobre o que me trouxe, sobre o que poderá vir a ser. Há 10 anos, era quase um ato de coragem ter (e manter) um blogue; existiam pré-requisitos tácitos (escrever bem era um deles). Há 10 anos as redes sociais davam ainda os seus primeiros passos e ainda ninguém era adicto na arte de expor uma vida perfeita por frases feitas e fotografias de instantes. Escrevia-se. E chegava-se ao fim de semana com aquela vontade quase pueril de “ir visitar aqueles blogues giros” que nos diziam alguma coisa. Afirmo-o: foi um ato de coragem criar o Vozes Femininas. Não me sentia à altura do tal pré-requisito, à altura do que lia nos tais outros “blogues giros”. Fui encorajada por duas amigas (que achavam que eu preenchia o tal pré-requisito) e pelas aulas de escrita criativa que desembocaram no meu primeiro conto publicado em coletânea, o Retratos a Sépia. Mas, devo dizê-lo, foi um percurso tateante, insegu...

Diálogo com o irmão que não tive (III)

Imagem
“As perguntas deixam-nos mais perto do sentido.” José Tolentino Mendonça in O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas - Há outras formas de ser feliz. Não tens de provar nada a ninguém e ele já cá não está para as cobranças. Além disso, achas que ele foi feliz? - Sei o que pretendes com todas essas perguntas: chamar-me à razão, mostrar-me outra direção… No fundo, dizer-me – à tua maneira – que tenho outro caminho, que sou melhor do que ele. [longo silêncio] - Mas tu não existes: és o irmão que gostava de ter tido, mas não tive, o amigo que criei desde pequena para encher a minha solidão de conversas fictícias quando os livros não chegavam, a amiga das confidências quando todas as outras, as reais, partiram para construir a família que nunca tive, o amante terno que ouve sem fundo e que oferece o peito no qual pouso a cabeça na almofada, ou, como se diz agora, o guia espiritual… - Enganas-te. Existo. Sou a pergunta. FIM (de uma história que nunca terá fim) ...

Diálogo com o irmão que não tive (II)

Imagem
« Tout l'or des hommes ne vaut plus rien, si tu es loin de moi  » - Crescemos com medo dele. As deferências que lhe eram dispensadas resultavam do seu caráter rígido e inflexível. Nem sempre advinham do reconhecimento ou do respeito. És muito diferente. - Hoje penso que lhe quis mostrar que era possível chegar lá por outro caminho, dando espaço aos outros. Mas não fui bem sucedida. - Não foste? - Vivi rodeada de homens dominantes, que subjugavam a seu bel-prazer. Não deveriam eles ser as minhas influências? - Ou, pelo contrário, aquilo de que foges. Repito: és muito diferente. - Fui à arca da herança buscar o que me convinha? - Porque não? Não é a isso que chamam de livre arbítrio? - Perspetiva animadora…

Diálogo com o irmão que não tive (I)

Imagem
- Sempre disseste que não querias ser como ele. - E sou? - Não exatamente. Mas tens dele. - O quê? - A força, a perseverança, o espírito de líder… - E isso é mau? - Não. Mas também tens a inflexibilidade, a intempestividade, o lado depressivo… - Pois… - Pois… Mas és diferente. Não existem duas pessoas iguais. A tua história é diferente. Tiveste acesso a outras portas, leste, ouviste, ensinaste. És mais afável, mais flexível, mais tímida… - Curioso… Passei a vida a fugir do que ele era e hoje gostava de ter a vida que ele teve… - A parte final da vida dele, queres tu dizer. - A que chegou pelo percurso que fez, por um passado que questionei muitas vezes. - Questionaste o feitio, a personalidade difícil, a severidade. - Na verdade, passei a vida a querer imitá-lo… - Imitar sem querer ser? - Imitar os resultados sem utilizar os mesmos meios… Daí o fracasso… - Achas que fracassaste? Falas como se a tua vida estivesse na reta final. - Em toda a linha. El...