quarta-feira, 13 de junho de 2018

Carta à filha quase de saída


12 de junho de 2018
Minha querida filha,

Sou eu que faço anos, mas és tu que estás de parabéns!

O último ano tem sido de grandes desafios e tu superaste-os brilhantemente!

Orgulho-me muito de ti: da tua humanidade e generosidade (para com amigos e animais), da tua serenidade face à adversidade, do teu sentido ético, a tua dedicação a causas (eco-escolas) e projetos (teatro), da tua resiliência, do teu sentido de humor.

Por todos estes motivos (e mais uma longa lista deles), tens sido uma real inspiração para mim. Não só porque sinto que tenho a obrigação de me manter firme, por ti e para ti, como também porque tens sido para mim um exemplo, uma referência. Um exemplo de coragem, de amor e amizade.

Temos todos a obrigação de sermos felizes, e a responsabilidade dessa caminhada é exclusivamente nossa. Posso ter aprendido isso nos muitos livros que leio e que me dão momentaneamente a ilusão de um mundo melhor, mas é ao observar-te diariamente que consolido essa convicção.

Estarei sempre a teu lado, mesmo quando fisicamente longe.

AMO-TE!



sábado, 9 de junho de 2018

Sobre a responsabilidade de sermos felizes



Não é a primeira vez que escrevo sobre um livro do Luís Portela. Com este seu último Da Ciência ao Amor, confirmo que, para mim, Portela é um dos melhores autores portugueses sobre desenvolvimento pessoal (não sei se o autor gostaria desta catalogação…).
Há conceitos muito poderosos neste livro, conceitos que nos levam à reflexão da responsabilidade que temos sobre a nossa felicidade.
O primeiro (e não tenho a pretensão de elencar prioridades) é a necessidade de assegurarmos a nossa higiene mental. A quase-obrigatoriedade de pararmos para fazermos balanços de vida, para dedicarmos alguns minutos do nosso dia à introspeção, para nos autoconhecermos.
Uma ideia que se repete ao longo desta reflexão é a da força do pensamento; uma força que acaba inevitavelmente por formatar o que nos acontece a seguir. Contudo, o autor insiste de diversas formas sobre o livre-arbítrio que igualmente temos de escolher os pensamentos que queremos, de selecionar os construtivos e rejeitar os destrutivos.
E esse livre-arbítrio leva-nos, afinal, ao cerne da questão: à responsabilidade que temos sobre não só os nossos pensamentos, como também sobre as palavras que proferimos (e que também têm força), as nossas atitudes, as nossas ações (ou falta delas).
Em última análise, tudo o que nos acontece tem uma causa e essa causa é da nossa responsabilidade. O acaso não existe.
Portela gasta também alguma tinta com a questão da aceitação, da tolerância vis-à-vis do outro, inclusive do outro que nos agride. Mas não, não se trata de dar a outra face, mas antes de perceber (pela tal introspeção) o que é que em nós despoletou a agressão do outro e corrigir, porque somos responsáveis… em última análise.
E também somos responsáveis pela evolução do Todo, pela evolução do universo. Porque ao trabalharmos na nossa própria evolução, despoletamos essa outra evolução universal, pelo exemplo.

domingo, 8 de abril de 2018

Reverdecer


Caixas de variados doces em cima da mesa da sala, aquele cheiro a calda de açúcar… A azáfama familiar, o estrear de roupa nova, as limpezas profundas. Nunca esquecerei as Páscoas no Minho, em casa dos meus avós maternos.

A visita pascal era o momento alto. Nada podia falhar: o tapete de flores à porta de casa, o vinho do Porto e o pão-de-ló, o envelope da côngrua. Aquelas segundas tinham uma magia quase infantil. A prova-lo, o facto de que nunca mais me esqueci delas ou do cheiro a calda de açúcar.

Uma geração se extinguiu, uma casa foi desmantelada, outras famílias se constituíram e as Páscoas mudaram. Hoje, é em casa dos meus pais. Felizmente, ainda temos direito à visita pascal e ainda fazemos o tapete de flores à porta de casa. Ouve-se a mensagem, beija-se a cruz, dão-se as amêndoas aos miúdos da comitiva, entrega-se o envelope e já está.

Se pensarmos no sentido da Páscoa, pensamos em ressurreição, em renovação, em novas oportunidades, em recomeços. Se Ele ressuscitou, por que razão não podemos nós também, à sua imagem, ressuscitar? Libertarmo-nos do sudário, sair do sepulcro e recomeçar? Podemos. Cabe-nos a nós dar o primeiro passo. Reverdecer.

Este ano, a tarde pascal foi dedicada à revisitação de fotos de outrora. Separei meia-dúzia de fotos minhas, menina, com aquele enorme sorriso que me caracterizava e que hoje carrego nas minhas rugas de expressão. Um sorriso que pensava ter perdido.

No entanto, dou-me conta que, ultimamente, o meu sorriso voltou a ser franco e amplo, que voltei a dar gargalhadas e que passei a gostar das tais rugas de expressão.
Embora agrilhoada, dei o primeiro passo, libertei-me do meu sudário e saí do meu sepulcro. Reverdeci.

  

sexta-feira, 30 de março de 2018

Ana, a Doadora


De uma forma ou de outra, os livros – ficcionais ou não – levam-nos a viajar e a refletir sobre um certo número de temáticas. Contudo, são raros os que têm o mérito de nos pôr a pensar criticamente sobre nós próprios.

Não foi difícil encontrar o meu perfil de doadora, logo nas primeiras páginas. Antes de fazer o teste online que Adam Grant sugere, já tinha uma noção clara do peso que o meu lado “giver” tem sobre o tomador e o compensador. Desde que me identifique com os seus valores, a pertença a um grupo sempre foi de extrema importância para mim: contribuo com o meu trabalho, o meu tempo, coordeno, mentorizo e nunca frustro as expetativas dos meus pares.

Depois de elencar os benefícios de se ser doador, o autor chama duramente a atenção para os perigos: exaustão, desilusão, a frustração de nunca chegar ao topo… Mais uma vez, encontrei-me…

O desafio é então o de encontrar o sempiterno equilíbrio. Ser-se doador, sim, ma non troppo. Há que abrandar o ritmo, e jamais – em circunstância alguma – esquecer os nossos próprios interesses. Como tudo o que toca o tal do equilíbrio, mais fácil dizer do que fazer…

E há uma questão que não é abordada no livro e que me interpela de sobremaneira: o facto de algumas pessoas fundirem o seu interesse pessoal no interesse do grupo, quase deixando de ter vida própria, nunca se negando a nada, nunca desiludindo ninguém, além delas próprias…

São indivíduos trabalhadores, que veiculam fortes convicções no seio de um grupo, convicções essas que não conseguem concretizar na sua esfera pessoal e mais íntima. Fazem-me lembrar aqueles vendedores de programas alimentares da Herbalife que andam com o autocolante no carro, lideram as vendas do seu grupo, mas não conseguem atingir o peso ideal… São uma referência entre os seus pares, mas, quando entregues à sua solidão, concluem que não aplicam o que preconizam, sem nunca entender porquê.

Foi isto que faltou no livro (além de uma boa tradução…). Faltou dizer ao vendedor da Herbalife de que forma é que ele atinge o peso ideal e pode sorrir de auto-satisfação, não apenas pelo que fez pelo grupo, mas – e sobretudo – pelo que fez por si próprio.

Desconfio que tal descoberta seria de envergadura semelhante à da pólvora.

domingo, 4 de março de 2018

Daqui a nada… Gostava de escrever assim



Sobre o primeiro romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, apetece-me derrubar ideias pré-concebidas. Por exemplo, a ideia de que só conseguimos escrever sobre o que vivenciamos, sobre o que existe no nosso mundo.

Como é que se escreve desta maneira, aos 20 anos, sobre a desilusão, a solidão, o silêncio? Ou sobre os despojos de uma guerra na qual não se combateu? Diz o próprio que faz como no cinema: põe-se na pele da personagem, velha ou nova, fútil ou profunda, e “interpreta” um papel. Pode ser. Não me posso esquecer de experimentar.

Esta mestria da escrita aos 20 anos é desarmante e interpela as nossas capacidades. E eu, que até conheço as últimas obras do autor, encontro nesta mais genuinidade, menos arranjos e composições. Agrada-me.

Gosto da técnica de pôr cada uma das personagens a falar na primeira pessoa, alternando-as por capítulos. Contudo, questiono apenas o facto (demasiado gritante) de as 3 personagens serem igualmente geniais e expressarem o que lhes vai na alma com a mesma genialidade da palavra.


domingo, 25 de fevereiro de 2018

O Véu e os Cabelos



Eras brilhante! Boa aluna, tranquila, culta, falavas pouco, mas sem hesitações; parecias não ter dúvidas sobre coisa nenhuma. Todas nós te envejávamos secretamente.

Parecias não ter (não tinhas) aquelas questões existenciais que nos tolhiam os intervalos das aulas e os serões: se as nossas paixões avassaladoras eram correspondidas, como íamos mandar a próxima mensagem subliminar ao alvo das nossas insónias, que roupa iríamos vestir no sarau da escola, como íamos convencer os nossos pais a deixar-nos sair no próximo sábado à noite, se devíamos optar por unhas de gel ou acrílicas…

Sabíamos-te de uma cultura e credo diferentes, mas não entendíamos (nem queríamos entender) os meandros da diferença. Aquele véu que nunca tiravas parecia envolver-te numa aura de intocabilidade.

Nas vésperas do Bataclan querias ir para medicina. Tinhas tudo o que era preciso. No rescaldo do Bataclan, fizeste um técnico-profissional de cabeleireira. O teu véu denunciar-te-ia.

Eu e todas aquelas que te invejavam secretamente estamos a meio de um percurso académico do qual não tínhamos a mais ínfima certeza no último dia de aulas do 12.º. Porque sim. Porque faz parte de uma convenção. Algumas de nós terão sorte, encontrarão – como um chamamento – a sua vocação imposta.

E tu, estarás a cortar cabelos, a fazer madeixas e obras de arte capilares para casamentos, comunhões e bailes de finalistas, num cabeleireiro de centro comercial low-cost e as tuas clientes nunca verão o teu cabelo e o quanto eras brilhante.

domingo, 28 de janeiro de 2018

São loucos os escritores

Termino este livro um dia depois do Dia Internacional da Memória do Holocausto. Este período da história sempre me interpelou e me deixou marcas: do Diário de Anne Frank, passando pel’A Lista de Schindler, e culminando na minha viagem à Polónia em 2009 e consequente visita ao campo de concentração de Auschwitz.

Li e vi (nomeadamente, aquando de uma visita recente à Casa Anne Frank) muitos testemunhos, e falei com pessoas que privaram com protagonistas (Aristides de Sousa Mendes, por exemplo). Testemunhos de quem viveu ou esteve próximo do epicentro. Os livros de história relatam, irão continuar a relatar, para que nunca se esqueça…

E há a ficção. Há o pegar num trecho dessa história, uma circunstância precisa (um massacre numa aldeia, vizinhos contra vizinhos), e trazê-lo à boca de cena, dar-lhe uma vida novamente, povoá-lo de personagens decifradas, e aí colocar também uma história de amor.

E o ficcionista-autor é português, e pega em toda esta matéria, apropriando-se dela, metendo-se na pele das suas criações, repetindo movimentos, deslocações, expressões faciais, explicando subtilmente, inserindo notas de rodapé discretas de orientação, colocando em outra língua, tornando inteligível pela via das emoções. São loucos os escritores!...

E o leitor fica assim… Primeiro, sem palavras, como Shionka. Depois, acordado por um grito das entranhas, como Shionka. Sentimos as dores, e os cheiros, e os membros decepados das crianças sob os pés, na floresta…

Nas 4 semanas em que este livro me acompanhou, dei muitas vezes por mim a perguntar-me: “Como escreveu ele este livro?”, “Seria eu algum dia capaz de escrever algo de semelhante?”. Bolas, são loucos os escritores!