quarta-feira, 5 de julho de 2017

Resistir

Regressei e guardo a sensação
De ter lutado numa guerra sem razão
Pergunto ao céu, será sempre assim?
Poderá o inverno nunca ter um fim?
A vida vai torta
Jamais se endireita
O azar persegue
Esconde-se à espreita
Os entretantos
São as minhas esperas
(frases descaradamente retiradas, descontextualizadas e apropriadas)




segunda-feira, 8 de maio de 2017

Correr e Chorar

É possível correr e chorar ao mesmo tempo?
Os meus amigos das maratonas dirão que sim, que - quando se chega aos 20 km - as dores são tantas que já nem se descortina a origem (músculos, articulações, ossos, tanto faz) e lá se soltam umas lágrimas.
Bem, não é desse choro de que falo. Não é o choro das dores, da aflição, da impotência.
Falo do choro da emoção, da beleza sentida, da esperança de que há melhor.
Esta manhã saí para correr cedo, nasciam os primeiros raios de sol. Para não comprometer a logística familiar, decidi-me por um percurso próximo de casa; as paisagens não são extraordinárias, pois trata-se de uma zona industrial, mas de madrugada tudo é lindo, sobretudo o silêncio, a imobilidade das coisas e a inexistência de almas físicas.
Sorteei o podcast de companhia. Calhou-me “O Amor É” com o Júlio Machado Vaz e a Inês Meneses; há muito que os ouço e que a sua receita de clarividência, cumplicidade e tranquilidade me deleita.
A conversa era dedicada a uma entrevista que Pilar Del Rio deu ao Expresso no final de abril último. “José foi uma maldição”, diz ela. Maldição…
Nunca tinha pensado nesta palavra como se de algo positivo ou bom se tratasse. O peso dos prefixos e das convenções…
Pois bem, a partir de hoje, esta palavra passou a ter para mim um significado novo. Maldição enquanto sinónimo de amor e dedicação incondicionais, de uma passagem para segundo plano, de um abdicar em prol de um nós. O amor de Pilar e José foi uma maldição. O amor de Pilar e José foi singular e magnânimo.
A maldição que afastou Pilar do seu único filho foi a mesma que lho devolveu quando mais precisou. A maldição. A singularidade. O reconhecimento de que amar desta forma não é para todos. E o nó na garganta que se forma, o aporte em oxigénio que começa a ficar escasso e chora-se. 
Chora-se a maldição dos outros.


segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cabine fotográfica



Lembras-te da máquina fotográfica do Dallas?
Íamos para lá aos domingos à tarde com as moedas retiras à curta semanada e divertíamo-nos à grande.
Parece que estou a vê-la, a pequena cabine de 1 metro quadrado, com uma cortina bege e, no interior, um pequeno banco de estrutura metálica e tampo de madeira, igual ao que havia no centro de saúde, quando íamos fazer o Raio X para a matrícula da escola.
Enquanto as outras miúdas do bairro iam para o quiosque folhear as revistas das celebridades e dos resumos dos episódios das telenovelas brasileiras, nós íamos para a máquina e encenávamos as melhores poses.
Para nós, tudo aquilo era mágico, dos minutos de espera até que a máquina ficasse livre, ao momento em que podíamos finalmente pegar e tocar naquelas tiras de instantes.
Tudo era combinado ao pormenor: a mesma cor da parte de cima da roupa, o penteado, o destino do olhar.
Aliás, pergunto-me até hoje porque combinávamos a cor da camisola, já que as fotos saiam a preto e branco.
Queríamos parecer irmãs, imortalizar a semelhança e a cumplicidade.
Mas onde raio se meteram essas fotos? Ficaste com algumas?
Deveria ser proibido arrumar gavetas e deitar fora fotos antigas.
Hoje teria sido tão fácil reproduzi-las…
Apercebo-me agora que aquela máquina era, no fundo, o antepassado daquilo a que hoje as nossas filhas chamam de selfie. Ninguém por trás a comandar poses, a enquadrar ou a pedir sorrisos. Nós e só nós, a nosso bel-prazer.

sábado, 18 de março de 2017

Águas de Março: Sobre Relações Humanas



“Com uma amiga chegamos a um tal ponto
de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono
e ela responde: não estou com vontade de falar.
Então digo até logo e vou fazer outra coisa.”
Clarice Lispector


Acho que nunca tinha dissertado muito sobre este assunto. Na verdade, penso até que, de alguma forma, sempre foi para mim um tema tabu…
Cresci numa família próspera em conflitos familiares, o que me fez persistir na vontade de querer fazer diferente.
No entanto, nestes últimos 6 meses em que estive ausente por cá, este tema tem-me ocupado os neurónios…
Talvez porque foram meses de algumas mudanças e as mudanças trazem sempre consigo algumas verdades sobre a natureza humana. Fazer escolhas em prol do nosso bem-estar implica sempre deixarmos algumas pessoas pelo caminho ou que estas saiam de livre vontade.
Ainda não percebi porquê, mas lido mal com essas saídas, como se essas pessoas, mesmo que me tenham magoado, ao saírem, levassem consigo uma parte da minha história e do que sou.
Por outro lado, assumi algumas funções de liderança que me deram mais visibilidade do que eu poderia esperar ou querer, e isso colocou-me numa rápida engrenagem de aprendizagem sobre conceitos como “não se agrada a Gregos e Troianos”, “invejazinha de galinheiro”, “ingratidão” e outros afins… A vida: a melhor escola de todas.
Também aprendi nos últimos tempos – espanto-me! – que tenho um jeito incrível para ajudar a solucionar os problemas dos outros, que não sei dizer não e que, por isso, não tenho jeito nenhum para resolver os meus…
Uma parte desse jeito vem da frontalidade com que digo o que penso, sem máscaras ou eufemismos. Nem todos apreciam, mas se o/a titular do problema me der algum crédito enquanto ser humano, acabo por acertar no alvo e ajudar a aliviar a carga do/a meu/minha interlocutor/a.
E, no fundo, julgo que é exatamente essa faculdade que faz das relações humanas relações de qualidade: podermos dizer exatamente o que pensamos e como nos sentimos, e a outra pessoa virar a página, como se nada fosse.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O Peso da Condição

“As relações têm um caráter prioritário para todos nós,
a nossa suscetibilidade face aos outros deixa-nos vulneráveis
a todo o tipo de dano e, em casos extremos, à possibilidade da morte.”
Donna Hicks in Dignidade

Apercebi-me rapidamente que não estavas bem.
Não que as circunstâncias fossem propícias a outro estado de espírito, mas tinha esperança de te encontrar melhor. Egoísmo meu, seguramente: precisava que estivesses bem.
Mas, a verdade, é que não estavas. Notei-te feliz por me veres. Muito feliz, até. Como se eu fosse uma lufada de ar fresco no teu luto. Foi quando entrámos no carro – o mesmo de tantas aventuras, de tantos quilómetros sem destino – que percebi. Ainda nem tínhamos saído do parque de estacionamento e já estavas a justificar a tua falta de desenvoltura: que já não conduzias há 3 anos por causa das gravidezes de risco, que o Carlos te levava a todo o lado e que se metia muito com a tua forma de conduzir.
Fomos ao centro histórico, como antigamente, beber um vinho e petiscar. Aos mesmos dois sítios de sempre. Disseste-me que esta era a primeira vez que saias com uma amiga desde o nascimento da Laura. Que a maternidade muda tudo, mas compensa. Assenti. Que gostavas de ter uma família numerosa. Respondi que eu também, que tinha detestado ser filha única. Que não estavas a conseguir lidar com a perda do teu segundo filho. Respondi que não tinha palavras nem equivalente, mas que teria adorado ter tido um segundo filho, e que não o ter tido seria, certamente, a maior frustração da minha existência. Falámos de úteros: o teu, incompetente, o meu, embolizado.
Decidimos falar de coisas boas, ou seja, das filhas que tínhamos, e toda a conversa do serão girou à volta da maternidade. À volta do que supostamente nos realiza.
No caminho para o hotel, não pude deixar de pensar no quanto estavas diferente, quase apática, triste. No quanto eras alegre e cheia de energia. No quanto eras contagiante e firme. E perguntei-me se também eu teria mudado, mas não obtive resposta. Talvez tu pudesses responder.
No dia seguinte, estavas ainda mais calada. Como se a conversa do serão anterior tivesse despertado em ti memórias tristes ou a consciência de um fim. Respondias com monossílabos, com o olhar distante. Não imaginas o que me custou sentir-te assim.
Permeável como sou, levei toda a viagem de regresso a estabelecer paralelos, a refletir sobre a nossa condição de mulheres, a tentar entender onde nos perdemos, a procurar uma luz.
Procuro afastar o pensamento de que jamais serei feliz. De que jamais poderei desabrochar para uma relação amorosa por causa desta maldita doença.
E quando penso na doença, penso no que a desperta e concluo que é a minha condição de mulher. De mulher só, a braços com uma vida demasiado pesada de responsabilidades, sem porto seguro, sem um ombro verdadeiramente amigo e despreconceituoso com quem possa partilhar as minhas dúvidas, as minhas frustrações, as minhas fragilidades.
Lembro-me que estive muito perto de o conseguir, até que, do outro lado, o peso das frustrações tolheu os sentidos e a suposta clarividência.
Penso nos desafios que ainda me esperam e pergunto-me se conseguirei dar a luta merecida, se não cairei na apatia em que tu caíste.
Fui embora e não te dei um abraço. Tive medo que não mo aceitasses. Estavas fria.
A falta que um abraço faz! Se estivesse agora contigo, dava-te um abraço até que cedesses. Ia fazer-te bem.