domingo, 14 de janeiro de 2018

Testemunhos traídos



Tenho estado a reler as mensagens que trocámos entre 2009 e 2012.

É desconcertante a sintonia, a irmandade, o consenso. Éramos uma espécie de “almas gémeas” (embora saibas muito bem o que penso destas expressões feitas, não posso deixar de admitir aqui a correspondência).

Acho que, de alguma forma, nos completávamos. Eu apreciava a tua polivalência, a tua organização e criatividade. Penso que tu apreciavas em mim a minha serenidade e o meu pragmatismo. Juntas fizemos coisas giríssimas! Éramos uma equipa.

Apareceste na minha vida numa altura conturbada, de total questionamento, de solidão. Vieste dar cor aos meus momentos cinzentos, acrescentar sentido à minha existência. Houve uma época em que nenhuma das duas dava um passo sem ouvir a outra.

Contudo, como tantas outras amizades, esta também se desvaneceu sem que eu consiga encontrar uma motivação para tal.

Pode parecer uma história igual a tantas outras. Quantas amizades veem o seu ciclo terminado, sem que haja uma razão plausível, uma rutura, uma falta de concordância?

O problema desta história é que deixou rasto… Estas mensagens trocadas, escritas sob o impulso das sensações causadas pelas leituras recíprocas. O entusiasmo da identificação, o tirar as palavras da boca, o completar das frases…

Com a distância que só o tempo concede, releio estes testemunhos e sinto-me traída. E não, não é por ti. Mas também não sei por quem ou por quê.

O problema é o registo escrito. Fica, perdura, subsiste… Podemos lá voltar e viajar com ele, mesmo que a memória já não corresponda integralmente.

Kundera tinha horror às interpretações que fizeram dos seus escritos. Depois da adaptação ao cinema d’A Insustentável Leveza do Ser, nunca mais autorizou que um livro seu passasse para o ecrã. E embirrava solenemente com as traduções que faziam das suas obras (este é, aliás, o tema central do seu ensaio “Testamentos Traídos”).

De alguma forma, é um pouco assim que eu me sinto. Irritada com o destino que estes escritos tiveram, com o final que foi reservado a estas mensagens trocadas, com o valor efémero e circunstancial das palavras. Frustrada por concluir que estes testemunhos não são resgatáveis, que se circunscreveram a um período, a uma vivência.

Como eu precisava de ti agora! Da tua sageza e experiência. Do teu olhar doce, do teu colo…

Acho que te vou ligar… Pelo menos, não fica o testemunho indelével.

Ou talvez não. Era na palavra escrita que comungávamos.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Sobre Esquecimento e Perdão

Do último livro de Tolentino Mendonça poderia destacar várias passagens. Os seus escritos interpelam-me sempre de forma avassaladora. Gosto da nudez, da humildade, das referências literárias e cinematográficas que me levam mais longe.

Contudo, é sobre esta citação do autor que eu gostaria de refletir hoje: “O gesto de esquecer e de deixar para trás também é uma decisão espiritual necessária. Há um passado que condena e, se não nos distanciarmos dele, se não dermos o salto que a fé nos pede, não seremos capazes de recomeçar.”

Independentemente do teor do que temos ou queremos esquecer, concordo que seja uma decisão espiritual útil. Espiritual porque deve partir de nosso âmago, sem intromissões, sob pena de se transformar em mais uma tentativa frustrada. Necessária porque se impõe uma depuração, uma higiene emocional que, se não for feita amiúde, nos polui e embarga a existência.

O passado deve ser aquele filme a preto e branco que apenas revisitamos para lembrar mensagens do que não devemos fazer. Tem o seu encanto, mas não passa ou não deveria passar disso. O hoje tem cores. O hoje molda-se ao que nos tornamos, num contexto dinâmico e evolutivo.

A fé – religiosa ou simplesmente de esperança – está, portanto, na origem dos recomeços, dos novos episódios, dos novos finais felizes. Contudo, não raras vezes, perdemos a fé no próprio esquecimento. “Nunca vou esquecer!” “Não sou capaz de esquecer.” Julgo que está na hora de atribuirmos ao esquecimento um sentido menos extremista e definitivo.

Mais adiante, José Tolentino Mendonça diz: “Perdoar é crer na possibilidade de transformação.” A transformação dos outros e a nossa própria transformação; acreditarmos que temos a capacidade de virar uma página e de prosseguir a escrita visando um novo final. No fundo, de transformar, de recomeçar.

Atrevo-me então a sugerir que “esquecimento” e “perdão” sejam elevados à categoria de sinónimos. Que ao ato de esquecer seja atribuído um sentido menos passivo, mas também menos perentório. E que ao ato de perdoar seja atribuído um sentido menos moral, menos redentor.

Afinal, não é possível esquecer sem perdoar, tal como não é possível perdoar sem esquecer, certo?
 


domingo, 24 de dezembro de 2017

Conto de Natal dos Tempos Modernos, Sem Avareza e Rituais Americanos



Ele.

Gostava da sétima arte e colecionava os DVD dos seus filmes e séries de culto. Nunca pirateados. Só dos que traziam o selo da IGAC. Opunha-se a cópias e imitações, e ordenava as caixas em várias estantes, por géneros e pela ordem das suas preferências.

Sabia de cor diálogos e tinha vívidos na memória cenários, cenas e bandas sonoras. Reificava realizadores, atores e atrizes.

Tratamento equivalente era aplicado à sua música. Esta escrupulosamente categorizada em ficheiros do seu PC, no qual ninguém podia entrar, não se fosse apagar algo acidentalmente. Cada escolha tinha uma história motivada, um sentimento associado, uma sensação refletida. Os seus sonhos de vida eram de concertos intimistas, os seus heróis eram cantores desconhecidos do grande público, sobre os quais tudo sabia.

Era organizado, meticuloso e apreciava o rigor das coisas simples.

Ela.

Era completamente obcecada por livros. Já não tinha lugar para eles, mas continuava a adquiri-los. Nem que tivesse de se desfazer de roupas, colchas de croché e lençóis de seda.

Tanto era capaz de ler um livro numa tarde, como de ler e reler outro até à exaustão e deixá-lo de pousio durante semanas, indagando. Os de ficção, motivavam-lhe viagens imaginárias que tinham a virtude de a resgatar da sua vida morna. Os de não ficção, sublinhava-os, anotava-os, resumia-os. Davam-lhe alimento para as suas formações e longas conversas… ou monólogos.

Adorava cozinhar. Dissecar sabores, juntar ingredientes dissociáveis, decorar mesas, ritualizar refeições, passar horas à mesa na companhia de um bom vinho. Mas detestava pseudo-chefes, pseudo-empratamentos e etiquetas exageradas.

Era pragmática, sonhadora e apreciava o rigor das coisas simples.

Eles.

Encontraram-se a algumas semanas de um Natal, já a cidade se enfeitava de luzes.

Equipa improvável, nunca mais se largaram e temas de conversa não faltaram nunca nas mesas fartas, no sofá frente à lareira, enroscados, a (re)ver um filme que motivava analogias com livros e músicas.

Ela passou a ter quem lhe arrumava os livros, lhe provava os temperos, lhe escolhia o vinho, lhe carregava as compras.

Ele passou a ter uma espetadora atenta ao seu lado, companhia para os concertos intimistas, os jantares infindáveis e as provas de vinho.

Passaram a gostar do Natal, porque o reconstruíram em conjunto, no rigor das coisas simples.