terça-feira, 31 de outubro de 2017

Longas Viagens de Carro sem Portagens



Sou hospedeira de bordo. Sou hospedeira de bordo por paixão. Ainda pertenço àquela geração à qual foi permitido seguir sonhos de infância e concretizá-los.

Sempre soube que não teria raízes, que dificilmente constituiria uma família e que os meus armários estariam sempre “quase vazios”. A minha família e os meus amigos vestem a mesma farda. Tive alguns namorados em alguns (aero)portos. Nada de sério. Não seria duradouro. Mas fui feliz.

Passei a fasquia dos 40 e as vontades começaram a mudar. Comecei a importar-me. Comecei a querer ter um lar e alguém à minha espera, alguém de quem cuidar. Comecei a querer ter uma estante com filmes, uma biblioteca com livros e uma garrafeira com vinho alentejano. Alguém a quem contar o meu dia, alguém de quem ouvir o relato do seu, a quem dar palpites. Alguém com quem passear de mão dada, alguém a quem contar os cabelos brancos e com quem fazer longas viagens de carro sem portagens.

Logo no primeiro encontro, percebi que eras tu. Estava nervosa, derrubei uma garrafa de água, logo eu, sempre tão segura de mim, tão dona de tudo. Pouco a pouco, encontro após encontro, percebi que a minha língua (a que falo e a que utilizo para falar) não precisava de tradução. Percebias-me tudo: a semântica e as hesitações do corpo.

Plena. Hoje regressei a casa tão plena por te saber à minha espera! Por saber que tenho alguém de quem cuidar, com quem constituir uma estante com filmes, uma biblioteca com livros, uma garrafeira com vinho alentejano, alguém a quem contar o meu dia, de quem ouvir o relato do seu, a quem dar palpites, com quem passear de mão dada, a quem contar os cabelos brancos, com quem fazer longas viagens de carro sem portagens.

Sabes que mais? Não viajo mais. Só se for longas viagens de carro sem portagens. Vou encher o nosso armário e as estantes e a garrafeira. E a minha vida e a minha casa. Vou encher-me de ti, alimentar-me da tua voz tranquila, das tuas piadas pueris e deliciosas, do teu olhar meigo, da paixão que tens pelas coisas simples, pelos filmes, pela música.

E vou partir contigo. Numa longa viagem de carro sem portagens.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Simplifica-te!







Ultimamente, os livros vêm ter comigo de uma forma enigmática.

Aqui está outro livro que, à partida, só pelo título e pela breve apresentação, não leria. Contudo, foi-me sugerido por uma amiga do coração (obrigada, Edna!) de uma forma tão entusiasmada que lhe atribuí o benefício da dúvida.

A minha primeira constatação é de que está muito bem escrito. No que diz respeito ao Português… Sem atropelos sintáticos, erros ortográficos ou clíticos mal colocados. Meio-caminho andado para me conquistar.

E é despretensioso… como o título indica.

A autora, Rute Caldeira, utiliza uma técnica que eu aprecio de sobremaneira: o storytelling. Todo o livro é uma recolha de estórias: as da Rute, na primeira pessoa, e as dos seres de luz que se atravessaram no seu percurso. É impossível não nos identificarmos com uma ou parte de outra. Garantia de rapport estabelecido.

Do livro, retenho as seguintes ideias fortes:

- Amar alguém não é sinónimo de autoanulação ou anulação do outro. Quando cuidamos do outro estamos a cuidar de nós mesmos e vice-versa.

- O tempo é um recurso endógeno e a sua utilização / aplicação deve começar em nós. Aprecio particularmente esta passagem: “A nossa alma adoece quando não temos tempo para os sonhos.”

- Deves ser a tua própria prioridade. Não se trata de egoísmo. Trata-se de mestria. Deves estar atento a ti próprio acima de tudo, respeitar-te e cuidar-te. Só assim poderás ter uma relação de amor e respeito com os outros.

E porque ainda acredito… no amor, no tempo, no outro…

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Desapego



Hoje, dou-me conta do desapego. Do seu poder curativo.

Quando as convenções já não suscitam o medo. Quando olhas à tua volta e a matéria já nada ou pouco te diz. Quando, pelo contrário, tens uma enorme vontade de construir com pouco e de te libertares o mais possível do excedente. Quando é a essência do outro que te apaixona, o que esse outro provoca em ti, em sensações, e não o que te dá ou proporciona. Quando percebes que estás mais leve, mais tranquilo(a), que dormes melhor. Quando tudo o que se atravessa no teu caminho se encaixa e deixa uma mensagem. Quando estás atento(a), focado(a), uma pessoa melhor, para ti e para os outros. Quando consegues olhar adiante e sorrir da existência que te está reservada.

Porque um dia acordaste em lágrimas e tiveste a coragem que te faltou anos a fio, e desafiaste-te a ser feliz.
E, de repente, já não estás só, e as pessoas começam a olhar para ti de outro jeito, porque tu olhaste para ti de outro jeito.

E concluis, afinal, que a carga vai mais leve, que o que largaste no processo mais não era do que coisas e experiências encenadas.

Desapegaste.