domingo, 3 de setembro de 2017

Verdades

Já aqui partilhei neste espaço o meu desencanto com os alguns processos de desenvolvimento pessoal e alguns livros designados de autoajuda.
A forma como cheguei a este livro de Don Miguel Ruiz é por si só um sinal. Um sinal de que valeria a pena dar o benefício da dúvida, ler e enquadrar. Não poderia ter vindo em melhor hora. Uma hora em que necessitei – mais do que nunca – de palavras simples, eficazes e reprodutíveis.
A história de Ruiz é uma história (quase) igual a tantas outras: proveniente de uma família tolteca pobre do México, o mais novo de 13 irmãos, consegue formar-se em medicina e pratica a neurocirurgia até que tem um acidente que o deixa entre a vida e a morte, e o fez repensar tudo. Conclui que a cura do corpo passa pela cura da alma, e regressa às origens para se dedicar ao estudo do xamanismo, tornando-se xamã. Estas 4 Verdades são um pouco o resultado dessa busca.
Li o livro num par de horas e – algo que já não me acontecia há algum tempo – tive necessidade de o reler uma segunda vez. E não sei se ficarei por aqui… O livro cativa pela sua simplicidade, pela alusão a experiências pessoas e pela faculdade de nos pôr a imaginar o que aconteceria nas nossas vidas se aplicássemos estes compromissos.
Tudo se resume a 4 princípios:
1. Sê impecável com a tua palavra: quando, através das palavras, passamos a nossa amargura e as nossas frustrações, mesmo que essas palavras se destinem a outrem, é sobre nós que recai o veneno que elas transportam. Desse princípio se ramificam os outros três.
2. Não leves nada a peito: ao levares a peito, “engoles” todo o lixo emocional dos outros e passas a “transporta-lo” contigo. O que os outros pensam ou sentem é um problema deles e não teu. Só podes ser responsável por ti (nomeadamente, pelas tuas palavras).
3. Não tires conclusões precipitadas: todo o mal que já te aconteceu teve origem em conclusões precipitadas (e no facto de teres levado a peito). Tiramos conclusões sem questionar, assumindo-as como verdades absolutas. É de extrema importância fazer perguntas.
4. Dá sempre o teu melhor: essa é a forma de viveres a vida intensamente. Ao dares o teu melhor, focas-te, és produtivo, bom para ti próprio e para os outros.
Numa viragem recente da minha vida, procurei pôr em prática estes princípios: fui seletiva com as palavras, procurando não utilizar um vocabulário ofensivo, tentei criar uma armadura contra a energia negativa alheia, tentando não tirar conclusões precipitadas e pondo-me no lugar do outro e perdoando. Finalmente, percebi que já levava uma vantagem quanto à quarta etapa: tinha procurado dar sempre o meu melhor… 
Sei que o caminho ainda vai no seu início, que vacilarei algumas vezes quanto a palavras e responsabilizações. Mas, curiosamente, sinto-me em paz, e este livro teve uma impecável palavra a dizer.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Nada e o Insustentável

Acabo de ler The Nothing de Hanif Kureishi.
Fui influenciada pela audição de 2 podcasts semanais do programa O Amor É conduzido por Júlio Machado Vaz e Inês Medeiros nos quais é feita uma análise profunda da entrevista que este autor inglês deu a um jornal português, e pela leitura extasiada que fiz na adolescência de um dos seus primeiros livros, O Buda dos Subúrbios.
O livro saiu muito recentemente e, como tal, aproveitei uma das minhas últimas viagens a Londres para comprar a versão original. Esperava um grande destaque nos escaparates das livrarias, mas nada… Pior, na Foyles, perguntei pelo livro à menina que estava no guichê das informações e tive de lhe soletrar o nome do autor... E lá fui eu ao 2.º andar, à procura da letra K. Bem, pelo menos, consegui uma primeira edição autografada…
Sobre o tema da relação que estabelecemos com os livros, fui percebendo ao longo dos anos que o melhor é mesmo não começar com grandes expetativas… Neste caso, confesso que parti com essa desvantagem: algumas expetativas…
A verdade é que não consegui estabelecer qualquer tipo de ligação ou empatia com o Waldo, a personagem principal, e que, ainda por cima, é narrador. Quando tal acontece, pouco resta para salvar a pátria.
Contudo, a ideia é boa: o antigo realizador famoso e excêntrico que vive os seus últimos dias e se relaciona com os outros como se de um filme ou de atores se tratasse(m). O tema da infidelidade, da hipocrisia e vassalagem sociais também são tratados, mas de uma forma demasiado caricatural. As referências erotizadas e sexuais são excessivas e cansativas.
O tema do vácuo, do nada, poderia ter sido explorado de uma forma mais intimista. Na verdade, é da verdade que se fala, e, como diz Waldo a certa altura: “The truth is not deep. It is not even hidden. It is just unbearable”.
O que me fez lembrar…


sábado, 19 de agosto de 2017

Desencanto



Li o título e interpretei-o como uma provocação. The Subtle Art of Not Giving a Fuck
Não é extraordinário, mas está bem escrito, é honesto e gosto do estilo humorístico do autor. Também teve o mérito de me pôr a refletir sobre uma questão que tem vindo a “incomodar-me” nos últimos tempos: o meu “desencanto” com o Desenvolvimento Pessoal.
Digamos que já experimentei algumas abordagens, já li uma boa série de livros e fiz uma boa dezena de formações na área do dito Desenvolvimento Pessoal. Conheci pessoas sérias e credíveis, com provas dadas e recebidas, que, de alguma forma, nos vão servindo de inspiração ou referência. Mas também já conheci autênticas fraudes, comunicadores motivacionais desonestos e formadores de pseudométodos que se tomavam por iluminados…
De ambos os lados, chego quase sempre às mesmas conclusões: os efeitos são efémeros, as ressacas (da falta dos efeitos) são duras e só podes contar com a tua própria pessoa, pois, em última análise, o Desenvolvimento Pessoal é um negócio como outro qualquer.
Se tivesse de extrair duas palavras-chave deste livro, as mesmas seriam “commitment” e “death” (isto soa melhor em Inglês):
- O compromisso para com o nosso “eu”, o nosso destino, a responsabilização pelos atos que cometemos, a nossa escolha nas diversas alternativas qua a vida nos propõe e a forma como interpretamos e reagimos às adversidades.
- A consciência permanente de que a nossa existência é finita leva-nos a saborear melhor cada acontecimento e a aproveitar mais as oportunidades.
Venham elas! As batalhas, as montanhas, as lutas, a consciência da morte.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Sopa de Letras

Abeirou-se discretamente da mesa onde se encontrava um senhor bem-posto.
- Quando o senhor acabar de ler o jornal pode-mo passar, se faz favor?
- Com certeza. Mas olhe que só agora comecei.
- Sim, eu sei, eu apercebi-me. É o jornal que me falta, o Público.
- Olhe que é A Bola…
- Ah! É a bola? Bolas… A Bola… A bola, para mim, é redonda… Não tem Sopas…
- Julgo que tem Palavras Cruzadas.
- Só quero Sopas… Onde raio se terá metido o Público? Ainda há pouco estava nesta mesa…
- Não o vi, peço desculpa.
- Eu já o descubro. Obrigada.
Voltou a sentar-se à sua mesa e distribuiu olhares furtivos às outras mesas à procura do malfadado Público. Quando finalmente descobriu o item perdido numa cadeira a três mesas dela, levantou-se num ímpeto e resgatou a preciosidade, de olhar triunfante.
Com um indisfarçável sorriso de orelha a orelha, refastelou-se na cadeira e foi direta à página da sopa de letras. O seu olhar ensombrou-se. O seu rosto já enrugado pareceu ainda mais velho e a gravidade ficou a nu. Deu um murro na mesa. Alguém tinha tido a ousadia de lhe fazer a sopa.
Olhou para o vazio, abanou a cabeça, recompôs-se. Empunhou a caneta, de ar decidido, e começou a auscultar a grelha rabiscada.
Esboçou um sorriso ao qual se seguiu uma gargalhada.
- Chi! Disparates! Só disparates!...



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Back to London



Eu – que nem aprecio muito a cidade – voltei a Londres, após 15 dias.
15 dias depois de ter assistido ao concerto de Céline Dion no O2 Arena, volto a Londres, desta feita, em trabalho, mas com algum tempo disponível para lazer, e para cumprir mais um sonho, que a vida é curta…
Assisti ao vivo ao musical O Fantasma da Ópera no Her Majesty’s Theatre. Desde o elenco original encabeçado por Michael Crawford e Sarah Brightman, e do filme de 2004 que me levou às lágrimas, que tenho vontade de testemunhar esta produção ao vivo. Valeu cada minuto.
Para começar, o teatro de Sua Majestade é monumental, os cenários idílicos, o guarda-roupa deslumbrante, a orquestra fabulosa. O elenco atual – com Ben Foster e Celinde Shoenmaker nos principais papéis - não fica a dever nada a Crawford, a Brightman & Co.. Alguém me sugeriu recentemente que deveria voltar às minhas aulas de canto lírico. Não tenciono fazê-lo, mas confesso que este musical me pôs a viajar no tempo: ao tempo dos aquecimentos vocais, das medições de tessitura, da discografia de Bartoli ouvida em looping… Que bom!...
Fiquei sentada ao lado de um expert italiano que bateu os compassos todos e sussurrou as principais árias, intervaladas por “Fantastico!” e “Bravo!” de 5 em 5 minutos. O público estava extasiado e, eu, lá larguei mais umas lágrimas.
Posso não adorar Londres, mas depois destas duas incursões vocais, suspeito que recordarei esta cidade com outro olhar.
Escolho a minha favorita, Think of Me, aqui, na voz de Sarah Brightman, em jeito de homenagem àquela que imortalizou esta ária e difundiu este musical mais do que ninguém.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O Amor é um Desvario



O último livro de contos de Teolinda Gersão é delicioso.
Fez-me lembrar o quanto gosto desta forma encurtada de escrita, fez-me viajar ao tempo do Páginas Lentas (coletânea com 3 edições na qual publiquei 3 contos) e deu-me vontade de voltar à escrita ficcional. À minha escrita.
Como bem resume Maria Alzira Seixo, Teolinda escreve a vida. Escreve o que dela interessa, o que dela levamos: os prantos, os amores (os maiúsculos e os minúsculos), os desvarios, as loucuras… Envolvente, lê-se de um trago e pede-se mais.
Deixou-me a pensar como se gere a questão da passagem do conto ao romance (e vice-versa). Pergunto-me algumas vezes se seria capaz de escrever algo tão longo quanto um romance… Mas essa passagem não constitui problema para Teolinda que manuseia a língua portuguesa com elegância e alguma ousadia (q.b.).
O último conto, Alice in Thunderland, é surpreendente. A ideia de dar voz a Alice, de a pôr a contar a sua versão dos acontecimentos “underground” é genial.
Há dias, ainda não tinha eu começado a ler o livro, ouvi a entrevista de Teolinda ao programa radiofónico À Volta dos Livros, no qual a autora dá um certo realce ao conto Jogo Bravo, dedicado ao futebol. Curiosamente, não é um dos meus preferidos: acho-o “demasiado vernáculo”. Contudo, sublinhei nele uma passagem sugestiva:
“Porque é assim que somos: incompletos, básicos, normais, a um passo de sermos vitoriosos ou frustrados, e inseparáveis da nossa bestialidade mais pura.
Do conto Uma Tarde de Verão, realço a passagem seguinte: “E, porque me perguntas, confessarei que sim, que a vida é um cão raivoso, que ninguém passa por ela sem mordeduras fundas. Em geral mortais.”
No Alice admite-se: “Mas nunca nada se passa como nos sonhos, e as histórias de amor têm um lado de espinhos.”
O Amor é, de facto, um desvario.