Não houve mais nada a seguir, nem seria necessário. Se já experimentaram a sensação de terem uma sala de cinema só para vós, imaginem terem um restaurante para gaudio privado. Entra-se e é-se logo abraçado pela sobriedade decorativa e pelo atendimento made in escola suíça, braço atrás das costas. Rapidamente percebemos que seríamos um misto de únicos clientes da noite e cobaias gustativas. Provavelmente, lemos bem e fomos bem lidos. Entrada, prato de peixe, prato de carne, sobremesa 1 e sobremesa 2. O prato minimalista é pousado na mesa e acompanhado de um contexto. Um meio-caminho entre nouvelle cuisine e festim para todos os sentidos. Como sempre, fiquei do teu lado direito com acesso visual privilegiado à cozinha envidraçada. Quando o chefe de sala terminava a sua explicação e se retirava, Samuel fixava-se em nós e perscrutava cirurgicamente todas as nossas reações. Creio que também nos lia os lábios. Entregámo-nos sem rede àquela dupla e até o nosso vinho alentejano ...
O caminho tem sido sinuoso. Quando penso estar quase a alcançar a meta, sou reenviada para a casa de partida. São já 3 décadas desta luta e começo a ficar cansada. Cansada das tentativas. Dos novos projetos. Das desilusões. Por mais que eu me tente convencer de que eu não sou responsável por esses fracassos, não consigo deixar de pensar nas muitas pessoas que cruzaram estas minhas batalhas e que arrastei comigo, nesses sonhos vãos. O pior é que começo a duvidar das minhas capacidades (ou deveria dizer competências?). Serei assim tão boa profissional? Tão rigorosa? Tão organizada? Não serei antes uma fraude? Uma ilusionista? Uma impostora. Na verdade, hoje, quero muito pouco da vida profissional. Gostaria de ter um quotidiano tranquilo, sem sobressaltos, sem confusões. Sem longas viagens. Sem precariedade. Sem interrogações. Sinto que desperdicei tempo, oportunidades, dinheiro em prol de um sonho caprichoso e sem sustentação. Não estará na hora de eu acordar desse sonho? De virar a pági...
No dia do acontecimento que hoje partilho convosco, eu deveria ter uns 6 anos de prática notarial. Já tinha arrecadado alguma experiência em procurações, inventários, testamentos, reconhecimentos, certificações e, claro, escrituras de compra e venda de imóveis. Apanhei, para o bem e para o mal, aqueles anos loucos do mercado imobiliário que antecederam “a bolha”. Era rara a semana em que o cartório não tinha uma escritura em agenda. Mas desta, em concreto, nunca me esqueci. Era uma manhã de março e chovia. Como é meu apanágio, entrei na sala 5 minutos antes da hora marcada (era o primeiro ato do dia), verifiquei computador e ligação ao ecrã secundário e abri o ficheiro com a minuta da escritura. À medida que os outorgantes foram chegando, fui cumprimentando e solicitando documentação, para não perder tempo. O casal de vendedores sentou-se à minha esquerda. O comprador, o pai deste (munido de uma procuração em representação da noiva do primeiro) e o gestor de conta do banco (por ser uma...
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