Atravesso a espaçosa sala das bilheteiras, saio para a rua. Dou de caras com um grupo de 4 muçulmanos ajoelhados e virados para Meca. É o Ichá, dirão os entendidos. Procuro o início da fila dos táxis. Parece que passou a ser perigoso apanhar Ubers à noite e, assim, não tenho de esperar e de tentar decifrar marcas de carros e matrículas ao longe. A visão já não ajuda. Entro. O meu motorista é brasileiro e não sabe onde fica o bairro de Pedralvas. “Meta Benfica no GPS. Havemos de nos desenrascar”. Desenrascamos. De manhã, chamo um Uber. A praça de táxis ainda é longe e, de dia, o risco é menor. Lá vem o Edemilson. Brasileiro. A conduzir um carro manifestamente pequeno para o seu tamanho. Desconfortável (ele, o condutor). Vocifera a cada fila de trânsito (onde estão os uberistas que nos perguntam se o ar condicionado está bom, se queremos mudar de estação de rádio e nos oferecem um Ferrero Rocher?). Para compensar, trabalho em locais fantásticos e aprendo que me farto. O traba...
Durante muitos anos, como D. Quixote, lutei contra moinhos de vento. Lutas inglórias, como se sabe. Nos dias em que estava mais inspirada, sentia-me como se tivesse escrito um best-seller e tivesse os holofotes editoriais todos apontados para mim à espera do próximo lançamento. Ouvia vozes: “nenhum livro que ela venha a escrever será tão bom quanto o último”, “quem ela julga que é?”, “deve ser plágio, de certeza!”. Eu que nunca escrevi nada... Ou, melhor, escrevo agora. Escrever salva-me da perda da razão, acalma-me, ilumina o turvo, dá sentido à minha confusão mental. Mas não escrevo para os outros; apenas para mim, para servir os meus propósitos de clarividência. Seria incapaz de escrever algo não-genuíno. Se a minha escrita vier, um dia, a afetar positivamente outros, terá sido apenas um efeito colateral. É a história do voluntário ao contrário: o voluntário dá aos outros e recebe mais do que dá, eu escrevo para mim e posso vir a dar aos outros... sem certezas... ...
Felizmente, gostas de conduzir em Nacionais. Eu não gosto, mas gosto de parar em sítios pitorescos, seja para tirar fotos, seja para tomar um café e ir à casa de banho. Lembras-te do Café Correia? Aquele que ficava numa terra cujo nome existe em vários distritos do nosso Portugal? Nem sei por que pergunto. É óbvio que te lembras. Tu é que não te ias lembrar?! Até aposto que te lembras do nome da terra! Bem, mas voltemos ao Café Correia. Estávamos a precisar desesperadamente de um café e, eu, de ir à casa de banho. Conhecíamos, por já lá ter estado, um café no nosso percurso e dirigimo-nos lá. Estava fechado. Perguntaste por um café aberto a um transeunte e este indicou-te o Café Correia, a 100 metros dali. Estacionámos logo a seguir a uma curva que deve ter o epíteto de “curva da morte” como 8974 curvas em Nacionais portuguesas (razão pela qual não gosto de conduzir nelas). O café ficava do outro lado da estrada. Atravessámos (o ato mais perigoso do dia) e entrámos no dito café. Ou, me...
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