Atravesso a espaçosa sala das bilheteiras, saio para a rua. Dou de caras com um grupo de 4 muçulmanos ajoelhados e virados para Meca. É o Ichá, dirão os entendidos. Procuro o início da fila dos táxis. Parece que passou a ser perigoso apanhar Ubers à noite e, assim, não tenho de esperar e de tentar decifrar marcas de carros e matrículas ao longe. A visão já não ajuda. Entro. O meu motorista é brasileiro e não sabe onde fica o bairro de Pedralvas. “Meta Benfica no GPS. Havemos de nos desenrascar”. Desenrascamos. De manhã, chamo um Uber. A praça de táxis ainda é longe e, de dia, o risco é menor. Lá vem o Edemilson. Brasileiro. A conduzir um carro manifestamente pequeno para o seu tamanho. Desconfortável (ele, o condutor). Vocifera a cada fila de trânsito (onde estão os uberistas que nos perguntam se o ar condicionado está bom, se queremos mudar de estação de rádio e nos oferecem um Ferrero Rocher?). Para compensar, trabalho em locais fantásticos e aprendo que me farto. O traba...
O caminho tem sido sinuoso. Quando penso estar quase a alcançar a meta, sou reenviada para a casa de partida. São já 3 décadas desta luta e começo a ficar cansada. Cansada das tentativas. Dos novos projetos. Das desilusões. Por mais que eu me tente convencer de que eu não sou responsável por esses fracassos, não consigo deixar de pensar nas muitas pessoas que cruzaram estas minhas batalhas e que arrastei comigo, nesses sonhos vãos. O pior é que começo a duvidar das minhas capacidades (ou deveria dizer competências?). Serei assim tão boa profissional? Tão rigorosa? Tão organizada? Não serei antes uma fraude? Uma ilusionista? Uma impostora. Na verdade, hoje, quero muito pouco da vida profissional. Gostaria de ter um quotidiano tranquilo, sem sobressaltos, sem confusões. Sem longas viagens. Sem precariedade. Sem interrogações. Sinto que desperdicei tempo, oportunidades, dinheiro em prol de um sonho caprichoso e sem sustentação. Não estará na hora de eu acordar desse sonho? De virar a pági...
Durante muitos anos, como D. Quixote, lutei contra moinhos de vento. Lutas inglórias, como se sabe. Nos dias em que estava mais inspirada, sentia-me como se tivesse escrito um best-seller e tivesse os holofotes editoriais todos apontados para mim à espera do próximo lançamento. Ouvia vozes: “nenhum livro que ela venha a escrever será tão bom quanto o último”, “quem ela julga que é?”, “deve ser plágio, de certeza!”. Eu que nunca escrevi nada... Ou, melhor, escrevo agora. Escrever salva-me da perda da razão, acalma-me, ilumina o turvo, dá sentido à minha confusão mental. Mas não escrevo para os outros; apenas para mim, para servir os meus propósitos de clarividência. Seria incapaz de escrever algo não-genuíno. Se a minha escrita vier, um dia, a afetar positivamente outros, terá sido apenas um efeito colateral. É a história do voluntário ao contrário: o voluntário dá aos outros e recebe mais do que dá, eu escrevo para mim e posso vir a dar aos outros... sem certezas... ...
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