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Fronteira

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Bateu numa árvore a fazer marcha-atrás. Foi o primeiro sinal. Quando o carro foi para abater, devia ter ido ver a amolgadela pela última vez. Mas não fui. Não me lembrei. Tive pena do carro (que, ao longo dos mais de 20 anos, transportou lenha, garrafões, caixas de mercadoria para o café…), mas não me lembrei da amolgadela. De qualquer modo, acho que eu seria a única pessoa a vê-la, a nota-la. Durante o meu longo calvário, aquele embate veio-me muitas vezes à memória. Tinha sonhos com o carro branco a fazer marcha-atrás. Acordava sempre no momento do choque. Em nenhum dos sonhos saio do carro e digo basta. Diz-se que os sonhos carregam mensagens do subconsciente. Diz-se… A minha vida com o Mário resumiu-se a embates. Embates dos quais saí sempre amolgada, mas continuei a carregar. Pelos filhos, por ele – que dizia nunca ser capaz de viver sem mim -, nunca por mim, frágil e amolgada. Tentei muitas vezes justificar-me. O amor. O amor que nos ludibria e nos diz que é possíve...

Servidão Humana

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Uma peregrinação de 700 páginas… A peregrinação de Philip em terras de Kent e Londres, na Inglaterra, em Heidelberg na Alemanha, em Paris... A sua peregrinação imaginária por terras de Espanha e pelo Oriente. A peregrinação que foi a sua vida, a sua desdita, os seus amores e desamores. E a peregrinação da leitora… É impossível não se ficar enternecida com a bondade desta criatura, não sentir pena da sua má sorte, não ficar irritada a cada vez que Mildred reaparecia na sua vida e este, subserviente, lhe voltava a abrir a porta. Ou partilhar da sua frustração pelos caminhos que a nenhum lado levaram e que só valeram pelo percurso e pelos ensinamentos deixados. Da sua meninice e da sua luta interna contra os dissabores trazidos pela deformidade física, que lhe puseram, desde cedo, a nu a crueldade do homem, passando pela adolescência em casa dos tios, pelas suas existenciais dúvidas de fé, às suas tentativas de libertação através de diversas carreiras goradas. E, finalmente,...

Céline

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É estranha a sensação de ter acabado de concretizar um sonho. Sigo a carreira da Céline Dion desde os anos 80, ou seja, desde o início. Devido à minha língua das emoções, sempre preferi a sua discografia francófona, muito embora os seus grandes hits sejam em Inglês. Podemos gostar ou detestar, achá-la romântica ou piegas - em questão de gostos vale tudo e respeito tudo -, mas Céline Dion é… Céline Dion. Uma voz potente e uma conexão emocional com o seu público inegualável. Não foi exatamente no local onde gostaria de a ter visto atuar, mas foi numa das melhores salas de espetáculos do mundo, o O2 Arena, num chuvoso sábado londrino.  Entrou possante com a rushiana The Power of Love e logo pôs o público em delírio. Como seria de esperar - em Londres sê Londrina - cantou sobretudo em Inglês. Escapou-lhe apenas Le Ballet ornamentada com um duo de dança sensualíssimo e, bien sûr, Pour Que Tu m’Aimes Encore , o seu grande êxito francófono. Surpreendeu(-me) com o seu ap...

Resistir

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Regressei e guardo a sensação De ter lutado numa guerra sem razão Pergunto ao céu, será sempre assim? Poderá o inverno nunca ter um fim? A vida vai torta Jamais se endireita O azar persegue Esconde-se à espreita Os entretantos São as minhas esperas (frases descaradamente retiradas, descontextualizadas e apropriadas)

Correr e Chorar

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É possível correr e chorar ao mesmo tempo? Os meus amigos das maratonas dirão que sim, que - quando se chega aos 20 km - as dores são tantas que já nem se descortina a origem (músculos, articulações, ossos, tanto faz) e lá se soltam umas lágrimas. Bem, não é desse choro de que falo. Não é o choro das dores, da aflição, da impotência. Falo do choro da emoção, da beleza sentida, da esperança de que há melhor. Esta manhã saí para correr cedo, nasciam os primeiros raios de sol. Para não comprometer a logística familiar, decidi-me por um percurso próximo de casa; as paisagens não são extraordinárias, pois trata-se de uma zona industrial, mas de madrugada tudo é lindo, sobretudo o silêncio, a imobilidade das coisas e a inexistência de almas físicas. Sorteei o podcast de companhia. Calhou-me “O Amor É” com o Júlio Machado Vaz e a Inês Meneses; há muito que os ouço e que a sua receita de clarividência, cumplicidade e tranquilidade me deleita. A conversa era dedicada a uma entrevi...

Cabine fotográfica

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Lembras-te da máquina fotográfica do Dallas? Íamos para lá aos domingos à tarde com as moedas retiras à curta semanada e divertíamo-nos à grande. Parece que estou a vê-la, a pequena cabine de 1 metro quadrado, com uma cortina bege e, no interior, um pequeno banco de estrutura metálica e tampo de madeira, igual ao que havia no centro de saúde, quando íamos fazer o Raio X para a matrícula da escola. Enquanto as outras miúdas do bairro iam para o quiosque folhear as revistas das celebridades e dos resumos dos episódios das telenovelas brasileiras, nós íamos para a máquina e encenávamos as melhores poses. Para nós, tudo aquilo era mágico, dos minutos de espera até que a máquina ficasse livre, ao momento em que podíamos finalmente pegar e tocar naquelas tiras de instantes. Tudo era combinado ao pormenor: a mesma cor da parte de cima da roupa, o penteado, o destino do olhar. Aliás, pergunto-me até hoje porque combinávamos a cor da camisola, já que as fotos saiam a preto e b...

Águas de Março: Sobre Relações Humanas

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“Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa.” Clarice Lispector Acho que nunca tinha dissertado muito sobre este assunto. Na verdade, penso até que, de alguma forma, sempre foi para mim um tema tabu… Cresci numa família próspera em conflitos familiares, o que me fez persistir na vontade de querer fazer diferente. No entanto, nestes últimos 6 meses em que estive ausente por cá, este tema tem-me ocupado os neurónios… Talvez porque foram meses de algumas mudanças e as mudanças trazem sempre consigo algumas verdades sobre a natureza humana. Fazer escolhas em prol do nosso bem-estar implica sempre deixarmos algumas pessoas pelo caminho ou que estas saiam de livre vontade. Ainda não percebi porquê, mas lido mal com essas saídas, como se essas pessoas, mesmo que me tenham magoado, ao saírem, levassem consigo uma parte da minha...