Fronteira
Bateu numa árvore a fazer marcha-atrás. Foi o primeiro sinal. Quando o carro foi para abater, devia ter ido ver a amolgadela pela última vez. Mas não fui. Não me lembrei. Tive pena do carro (que, ao longo dos mais de 20 anos, transportou lenha, garrafões, caixas de mercadoria para o café…), mas não me lembrei da amolgadela. De qualquer modo, acho que eu seria a única pessoa a vê-la, a nota-la. Durante o meu longo calvário, aquele embate veio-me muitas vezes à memória. Tinha sonhos com o carro branco a fazer marcha-atrás. Acordava sempre no momento do choque. Em nenhum dos sonhos saio do carro e digo basta. Diz-se que os sonhos carregam mensagens do subconsciente. Diz-se… A minha vida com o Mário resumiu-se a embates. Embates dos quais saí sempre amolgada, mas continuei a carregar. Pelos filhos, por ele – que dizia nunca ser capaz de viver sem mim -, nunca por mim, frágil e amolgada. Tentei muitas vezes justificar-me. O amor. O amor que nos ludibria e nos diz que é possíve...