Por esses dias madrugadores e longos, Helena vivia oprimida pelo tempo. Nem mesmo o seu apurado sentido de organização, o seu carácter pragmático e o seu habitual optimismo ajudavam. Num dos raros momentos em que trocou dois dedos de conversa com uma colega de trabalho na cafetaria da empresa, Helena – de espírito aberto e curioso – pensou ter encontrado uma saída para o seu labirinto emocional: - Vê lá tu, vamos em Abril e este ano já perdi as estribeiras três vezes! Isto não é normal. Deve ser das insónias… Eu nunca perco as estribeiras! - Ó Helena, tu precisas é de uma cura cósmica. Tens de realinhar esses chacras! Ouvi falar de uma rapariga muito boa, lá para os lados de Carcavelos. Eu arranjo-te o contacto. - Achas?! E foi assim que Helena decidiu, entre hesitação e curiosidade, fazer apelo a forças desconhecidas. Poucos dias depois (depois de uma luta infernal com a sua agenda para encaixar a “experiência”), entrava numa salinha de pouco mais de 8 m2, acolhida por uma curadora có...
Voltei hoje àquela praia após quinze anos. Assim que pus o primeiro pé na areia e a minha vista alcançou as barraquinhas, lembrei-me logo dela. Éramos vizinhos de praia. Reservávamos as barracas de um ano para o outro para conseguir os melhores lugares. Apesar de um ano inteiro sem contacto, sabíamos que, logo no primeiro dia, a menina Idalina - Lina para os amigos - lá estaria. Chegávamos por volta das nove e meia, eu, a minha mãe a minha irmã. Hei-de morrer sem ter visto o meu pai pisar a areia e ir ao mar. Quando chegávamos, a Lina já lá estava: - Gosto dos primeiros movimentos na praia – Dizia ela. Embora bastante mais novo, acho que tinha uma paixoneta pela Lina. Fingia não prestar atenção àquela “conversa de mulheres”, mas sorvia cada comentário, cada máxima, cada ritual, cada cheiro. Vinha sempre sozinha, nunca falou muito do resto da sua vida e dos restantes onze meses do ano. Essencialmente, “trabalhava para o bronze”: ia ao mar em linha quase recta, não fosse pelas ...
Por sugestão de um primo meu, vi ontem um documentário espanhol sobre o tema da Obsolescência Programada. Desde então, o conceito de O. P. – do qual tinha uma vaga noção – não me sai da cabeça. Passei o dia a aplicá-lo a tudo o que movia à minha volta. Um engano? Trocado por miúdos, a O. P. é um conceito económico surgido nos anos 20 do século passado que traduz as acções industriais destinadas a encurtar a vida útil de um produto com o intuito de dinamizar o consumo e, por conseguinte, a economia. O documentário dá vários exemplos ilustrativos de entre os quais o das meias de vidro ou o da velhinha lâmpada de tungsténio e, mais recentemente, o das impressoras às quais é adicionado um chip que limita o número de impressões. O documentário põe ainda em causa os reais efeitos da O.P. chamando a atenção para questões de sustentabilidade e para a pegada ecológica. A posteridade não perdoará. Pois é, vivemos num mundo onde quase tudo é descartável. Troca-se sem a garantia de se estar a troc...
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