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Ritz

Entrou na vetustamente elegante sala do Ritz. A alcatifa preta estampada de nódoas ocultas despertou a sua rinite. O cheiro a roupa do baú da avó Dores transportou-a à infância ou ao que lhe pareceu ser a infância. Aquele papel de parede que tanto entra nos seus sonhos! Mas o que tem a alcatifa a ver com o papel de parede? Ah! São revestimentos, coberturas… Como a roupa… Hoje, até a cabina está a condizer. O Sr. Martins [nome fictício] anda há anos a dizer que vai “trocar o material”. Bastava olear as dobradiças, já era um começo. Depois da conferência, apresenta-se um livro. Mudança de cenário. Entra num programa estilo Carlos Pinto Coelho. 150 pessoas a olhar para ela. Detesta holofotes. Até no Ritz.

Fim de Viagem

Cheguei da viagem com partida e chegada incertas. As malas ainda estão a um canto, Por abrir, por desmanchar… Vou adiando a hora de arrumar, De oferecer as recordações trazidas, Na esperança de acordar da realidade e voltar ao sonho. Não levei livro de bordo ou diário de viagem. Invejo os que fotografam cada momento em alta resolução! Fica apenas a nostalgia das sensações, A desilusão do acabado. De regresso ao nada, na esperança do tudo. Porque temos de regressar?

Simulacro

Há dias, revisitei Baudrillard e a sua teoria do simulacro. A teoria deste filósofo e sociólogo [aqui está uma dupla que costuma dar bons resultados!] francês tem por base a ideia de que o real é substituído por imagens (ele que também era fotógrafo, sem acaso) e de que o referente vivido desapareceu. Num período em que ando particularmente introspectiva e “analista”, dei por mim a procurar evidências dessa teoria à minha volta. Fiquei espantada com a quantidade de resultados da minha pesquisa! Só ainda não percebi onde me posiciono nesta realidade virtual matrixiana… Refiro-me a indivíduos, se é que esse conceito é válido no mundo das imagens e dos simulacros. Cópias de “pessoas” cujo original se perdeu numa infância malsã, numa juventude ou adultez (perdoem-me o neologismo, mas vem mesmo a calhar) maquilhada, sem percalços de maior. Pessoas que vivem num paralelo onde o cenário envolvente – ao jeito do videojogo SIMS – é por elas seleccionado e “construído” (aviso já que, dado o tema...

Enjoo

Ando a afastar as moscas dos restos de comida, A espantar os pássaros à volta da piscina, A limpar gavetas e memórias, A desfragmentar o disco… Em estado de lenta depuração. Rodeada que ando de gente tão importante, Que se auto-promove, Debitando demagogias e citações alheias… Que abafam o meu silêncio reconstituinte, Não me deixando calar. Por um dia, Gostava de viver numa tribo amazónica, Purgar-me com café, Ou num qualquer navio em trânsito na Somália Para caçar piratas. Pena eu enjoar tão facilmente…

Mini-conto de Verão

- A tua mãe era rápida, David. - Rápida, pai? - Sim, sempre à frente da sua sombra, sintonizada em tudo. Marcava o código quando a máquina ainda pedia para aguardar… - Fala-me mais dela, pai. - Era linda. Mas isso já sabes. Já to devo ter dito um milhão de vezes. - Para não falar no milhão de fotos… - Pois. Mas era uma beleza “não convencional”. - “Não convencional”? - Ela tinha uma dessas T-shirts que oferecem nas perfumarias para promover marcas de cosméticos. Justinha, a realçar a suas imperturbáveis formas. Só me lembro que era uma marca americana. Como lhe assentava bem o raio da T-shirt! “Non-conventional beauty”… - O teu inglês já viu melhores dias, pai… - A tua mãe falava um inglês perfeito. E espanhol. E Italiano. E quantas mais línguas viessem. - Talvez tenha herdado isso dela. - Sabia o nome das capitais todas e os estilos arquitectónicos, gostava de meter conversa com os chefes dos restaurantes e dissertava sobre ervas aromáticas. Tanto lia Tolstoi ou Dostoievski, como troc...

Taxistas II

Reflectia Isabel sobre os diferentes mecanismos de estimulação lacrimal quando chegou ao Porto, no último Alfa. - Boa noite. Quero ir para um hotel que tem “Artes” no nome… - O “Eurostar das Artes”, menina? - Esse é em Cedofeita? - É, menina. - E não há outro hotel com “Artes” no nome? - Não, menina, que eu saiba… - Então é esse. Vamos. A trepidação do táxi sobre os paralelos da rua do Heroísmo acordou Isabel. - Tenho a obrigação de conhecer melhor o Porto. Vivi aqui quatro anos. Fiz cá a faculdade… - Ai é, menina? - Sim. Olhe, vivi aqui muito perto, na rua António Granjo. - A sério? Também vivo no Bonfim, menina, e tenho um grande amigo que vive na rua António Granjo, o Jorge. Vive naquela casa amarela que dá para o Horto Moderno. - Está a brincar?! Eu vivi nessa casa! Não me diga que o seu amigo Jorge era filho do Sr. Jorge Meireles? - Exactamente, menina! - Não acredito! Andei com ele ao colo, valha-me Deus! Ia para casa deles ouvir o Sr. Meireles tocar piano! Como é que eles estão?...

Coffee Break

A Lisboa pós-Santo António acorda tímida… Parque das Nações – Cabo Ruivo – Marvila – Bela Vista – EUA – Campo Pequeno – República – Saldanha – Marquês de Pombal – Rua Castilho: limpo, 10 minutos. Adoro a nossa capital com cheirinho a férias. Como sempre, sou das primeiras a chegar. Sento-me no hall do hotel e mergulho no meu livro até despertar o buliço do congresso, até abrir o Secretariado para as credenciações. «First of all, congratulations to Ghana!». Foi este o “pontapé de saída” da Sessão de Abertura. Na terceira intervenção, o Embaixador António Monteiro inicia assim a sua alocução perante uma plateia de africanos: «Ainda bem que falo hoje e não amanhã depois do Portugal /Costa do Marfim…» Em intervenção pedida aquando da sessão de perguntas e respostas, um participante da Costa do Marfim pediu a palavra para dizer que tinha consultado o maior feiticeiro do país e que este lhe tinha assegurado que a Costa do Marfim ganharia… Desengane-se quem pensava que futebol e estratégia in...