Mensagens

Sobre o livro que abre a porta ao novo mundo

Imagem
  Depois de ler Robin Sharma e Paulo Coelho, fiquei à espera de um autor que me conseguisse entusiasmar ainda mais. Eckhart Tolle é o seu nome. De uma forma despretensiosa e clara, socorrendo-se de parábolas, passagens da bíblia ou, simplesmente, de experiências de vida, Tolle aborda uma diversidade de conceitos essenciais a todo(a)s aquele(a)s que procuram viver uma vida melhor. Cada leitor fará a sua receção própria do livro e elegerá os temas que mais lhe pesarem. Pessoalmente, realço: 1.        A necessidade/a possibilidade de mudança interior antes de encetar qualquer mudança exterior: a ordem não pode ser subvertida! 2.        O conceito de não-reatividade entendido como uma força e não como uma fraqueza, e a necessidade de vencer mágoas e ressentimentos. 3.        O conceito integral de ego que equipara auto-estima a humildade. 4.   ...

Pedagogia do Esquecimento – Conclusão

[O preâmbulo, a primeira parte e a segunda parte deste conto foram publicados, respetivamente a 10 de fevereiro, 3 de março e 20 de abril de 2013]    «Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais.» Clarice Lispector in A Paixão segundo GH   Tinha de ser hoje. Sabes – ou talvez já nem te lembres – o quanto eu gostava de assinalar datas, quantificar períodos… Faz hoje um ano. Já tenho resposta. O esquecimento instala-se quando já pouco há para escrever. Quando o Romance de vários Tomos dá lugar a um conto tripartido, parido aos solavancos, mais por respeito ao tempo do que à lembrança. Quando não restam dúvidas, quando tudo encaixa. Quando, finalmente, te compreendo. Disse-te um dia, sob a lua de Neruda, que te avisaria. Esse dia chegou: o meu amor por ti terminou. Como música, deixo-te aquela com que tantas vezes me apunhalaste: o silêncio. Estou agora em paz.  

O Chaves

Imagem
Tinha a aparência de um toxicodependente do Casal Ventoso dos anos 80. Cabelo desgrenhado que não via água do cano há mais de quinze dias, calças de ganga e T-shirt desbotadas e puídas, mãos gretadas e odor de suor sobre suor. Falava sozinho, como se conversasse com os mortos que lhe respondiam. Parecia daquelas criaturas surgidas do vácuo, a quem não atribuímos nem história, nem família, nem lar. Recapitulava em voz alta a cor e a ordem dos fios que cravava como se recitasse a tabuada. Não passava recibo e deslocava-se numa carrinha Audi dos mesmos anos 80. O Chaves era o melhor eletricista da Vila.  

Lugar de Estacionamento

Imagem
Ocupei o teu lugar de estacionamento. Talvez não seja exatamente aquele, não sei bem… Mas, aquela rua ficou sem um carro, portanto, ocupei o lugar vago. Engraçado… Quando chego ao ponto morto, a rádio deixa de dar, como se tu fosses a antena transmissora daquelas paragens. Às vezes, ficou ali 5 minutos antes de sair e dou por mim a imaginar que o asfalto já deu pela falta dos pneus do teu carro. Ocupei o teu lugar de estacionamento. E também tomei em mim as rédeas do teu destino. Vou dar um sentido à tua partida, juro. Carrego as tuas cicatrizes. Mas não se veem: camuflei-as com as melhores técnicas de maquilhagem. Nesta altura das nossas vidas, a maquilhagem é importante. Ocupei o teu lugar de estacionamento e não tenho o direito de chorar. Como poderia? Recordo-me de olhar o teu corpo já frágil e amputado e de me falares da imensidão do deserto. E de sorrires. Sorrias muito. Recordo-me que, quando aquele perverso-narcísico com quem estiveste casada te...

Pedagogia do Esquecimento (II)

Imagem
[O preâmbulo e a primeira parte deste conto foram publicados, respetivamente a 10 de fevereiro e a 3 de março] «Fool, I wonder if you know yourself at all You know that it could be so simple.»     A presença dele, física e/ou virtual, impunha-se-me quando já a esperava. Matematicamente irritante. Depois de semanas esquizofrénicas de noites brancas se terem acalmado, depois de ter quase desistido de olhar para o visor do telemóvel a todos os quartos de hora… Nunca saberá o quanto e como o amei: há sentimentos e estados do ser fora do alcance da esfera narcísica de alguns seres outros. No início do segundo ano, comecei a constatar o que era óbvio: dava-me azar. Sempre que ressurgia na minha vida, algo me era retirado. O saldo da dignidade era o que mais sofria. As perdas iam ficando a depurar no consultório da psicóloga incrédula. Naquele dia, como nas sagradas escrituras, acordei a querer adormecer. Sentei-me na borda da cama e fiquei a olhar para...

Primeiro encontro com o escritor

Imagem
- Li o seu último livro. Gostei. - Sério? - Sim. Aliás, se soubesse que estaria aqui, tê-lo-ia trazido para mo autografar. - Não seja por isso. Posso ir ao carro buscar um exemplar e… - Não vale a pena. Não seria a mesma coisa… - Porquê? [sorriso] - Aquele foi o livro que eu li. Está rabiscado, sublinhado, comentado… - Comentado?! Gostava de ver isso… - Demasiado íntimo… - Vejo que te apropriaste dele… Bom sinal. - [meio-sorriso] - O que fazes na vida? - Sou professora. - De quê? - Geografia. - Viajas muito? - Bastante. - Na realidade ou metaforicamente? - As duas coisas. - Estou a gostar disto. Vou buscar uma bebida. O que bebes? - Nada. - Com ou sem gelo. - Com. […] - Escreves? - Nada para levar a sério. - Gostava de te ler. - Na realidade ou metaforicamente? - As duas coisas…  

Pedagogia do Esquecimento (I)

Imagem
[O preâmbulo deste pequeno conto foi publicado neste espaço a 10 de fevereiro de 2013] «Will you see me in the end or is it just a waste of time trying to be your friend»     A decisão definitiva do esquecimento chega no dia em que se perde a ingenuidade de acreditar numa (im)possível amizade. No dia em que tomamos consciência de que, no dia de Natal, nos apressamos a telefonar para desejar boas festas, com o medo inconsciente de ficarmos toda a ceia à espera do nada. No dia em que descobrimos que, afinal, não somos mais do que mais um apagão na incessante e doentia procura de luz do outro. No dia em que a raiva e a diabolização dão lugar à compreensão, porque só há raiva relativamente ao que não se compreende. No dia em que, finalmente, decidimos falar do que já não temos, porque é mais fácil, porque as lágrimas secaram. No dia em que tivemos a coragem de fazer um percurso diferente, de apagar rastos, de fechar a porta, de ...