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Os Despojos do Dia

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Ficou a ausência, o vazio, O nó na garganta, o travo na boca. Se subtrair os sorrisos, as palavras amigas, Os sucessos e o sentimento de dever cumprido. E apesar destes, São esses os despojos do meu dia. Não elimináveis no lixo doméstico, Não apagáveis da reciclagem no meu desktop. Marcados a ferro e fogo, Irreversíveis como doença quase terminal, Apesar dos avanços científicos, Da vontade na cura, A predisposição – genética ou literária – está lá. Recolho nestas linhas os despojos do meu dia.

Consultas II

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- O que é que escreves nesse caderno? - Tiro notas. - Notas… Aquilo que eu digo ou as tuas impressões sobre o que vou dizendo? - As duas coisas. - Digamos que é a minha “biografia não autorizada”… Quando publicares avisa para eu me pôr a milhas! [risos] - Vejo que não perdeste o sentido de humor. - Sabes, o meu sentido de humor é proporcional ao meu estado depressivo… - Queres explicar? - Não sei o termo certo. Ando lamechas. - “Lamechas” como? - Choro por tudo e por nada. Ponho-me a ouvir música fatela; aqueles ersatz de Whitney Houston que tanto critico. Ponho-me a remexer nas coisas que ele me deu. Até nesse ponto estou em desvantagem… - Como assim? - Eu só lhe oferecia “consumíveis”, coisas que não deixassem rastos… Inconscientemente, acho que estava a protegê-lo. Ele, oferecia-me objectos, coisas que perduram e das quais não me consigo livrar. Partilhei os meus sítios com ele. Só agora me apercebo que o contrário não aconteceu o que faz de mim uma condenada às memórias… - Tens dor...

Consultas I

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- Porque dizes que sabias que voltarias cá? - Soube-o cedo. Desde o primeiro “Game Over”. Vi logo onde isto me levaria… Às vezes, lembrava-me desse teu quadro. - Qual deles? - Esse aí, atrás de ti. O das pontezinhas. É Hamburgo, não é? - É… Tentaste afastar-te? - Várias vezes. Mas voltava sempre ao contacto. - Tu? - Sim, sempre eu. Era como andar nos A.A. e voltar sempre a cair na tentação do próximo copo. - Voltaste a vê-lo? - Vi-o há dias. - Falaram? - Small talk. Só faltou falar no tempo que fazia. Nem me perguntou pelo David. - E então? - E então, pensei que estava preparada, mas não estava. Sou uma parva. - O que é que te preocupa mais neste momento? - É a noite. Vou para a cama e fico a lutar com a caixinha dos comprimidos escondida com o rabo de fora atrás do retrato do David: tomo não tomo. Ultimamente, só tenho tomado à quarta noite consecutiva… Depois, é o contar das horas, os filmes a passar na minha cabeça, os exercícios premonitórios. Preocupa-me também o facto de este déf...

Q.E.

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Emocional Até ao tutano, com direito a tatuagem, Olhar espelhado e tremores vocálicos. No dever e na paixão. Quando ouço, leio, falo, canto, grito, esbracejo, tranquilizo, sossego, acalmo. Emoção É a minha língua materna, A minha língua esperântica; Recuso-me a traduzi-la. Sob pena de não haver intérpretes disponíveis, Sob pena de as etiquetas não serem as correctas. So what? Temperamental, intempestiva, exagerada? Sou emocional. Sem fitas, nem limites De choro e riso fáceis Confesso-me. Com tudo o que comporta de bom e de mau. Vivo-me. Partilho-me. Emociono-me na perspectiva de outros emocionais, De pares, sósias, siameses Que não necessitam de explicações, que não se ofuscam. Para quem meia-emoção basta.

Passwords

Alterei todas as minhas passwords para não ter de me lembrar da Foz do Paixão das viagens ao Deserto da Filosofia do Caramulo e dos Anos Pares. Como se não as escrever apagasse desconstruísse, retrocedesse. As actuais, são mais terrenas, menos seguras… Talvez me façam adormecer e regressar.

Frutas e Bestas

Gostavas de sair pela madrugada, com os primeiros. Desde que fosse para as ruas de uma capital, de uma metrópole. Corria-te nas veias tudo o que começa por “metro-“. Indistinta na multidão era como gostavas de te sentir. Gostavas que outros te procurassem e não te encontrassem logo, até ao desespero de um telefonema (- Onde estás? Não te vejo. De que lado da rua estás? Perto de quê? [pergunta de retórica: tu nunca estavas perto de nada]). O que não sabias era que alguns outros – não creio ter sido o único – há muito te tinham identificado e apenas queriam prolongar este momento ímpar de ti à distância. Conversar contigo era mergulhar num quebra-cabeças. Era encontrar não um sentido, mas possíveis explicações. Ter a certeza de ser ouvido e aproveitado. Andavas à procura de respostas. Não muitas: duas. 1. Por que motivo uma fruta que ontem te parecia suculenta, te parece hoje mirrada e amarga? 2. Por que motivo se passa tão rapidamente de bestial a besta? Gostavas de explicar que, embora...

Parole, Parole

Sobre-vivo delas, à unidade, ao quilómetro. Enchem-me as linhas e a existência. Sorvo-as dos livros apontados ou intuídos, das legendas do meu cinema. Traço-as, desenho-as, digito-as à velocidade e ao ritmo da minha sede. Gosto de as ver, de penetrar nelas com o olhar, de as distinguir e arrumar, de as alinhar… Teria razão Bernardo Soares? Só estão completas quando ouvidas? Das palavras ouvidas, começo a só gostar das que emanam de uma pauta, ditadas que são por outra melodia… As outras, as ditas, proferidas, anunciadas, não deixam rasto à flor da pele, não têm palavra. São cruéis e mentirosas, voláteis e curtas. Não vinculam. Não respeitam. Gosto, cada vez mais, das sussurradas, dos mantras, das silenciosas. Das que se amontoam no papel, no monitor ou as que saltam no ecrã da tv. Gosto dessa materialidade, de poder tocá-las, desmanchá-las. As outras, como se diz, voam com o vento, com a expiração do expelidor. Não se dão. Não têm palavra.