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Quarto encontro com o escritor

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- As suas personagens são todas imperfeitas, feias, infiéis, mentirosas, hipócritas… Não gosta da perfeição? - Não sei ficcionar sobre o que não existe. - Nunca lhe aconteceu querer criar uma personagem sem mácula? - Isso daria muito trabalho… As personagens que crio são modeladas com partes de quem se vai cruzando comigo, com as facetas deste e daquele. - E nunca se cruzou com a perfeição, portanto?... - Não. Anda por aí? - Existe? - Provavelmente. Fala tanto nela!...

Analepse

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Como se todos estes anos não tivessem acontecido. Na parte mais eu de mim, continuas… A energia da juventude, mas do agora, invade-me, estremece-me… A pressa de ocupar o teu espaço físico, na certeza de ocupar o espiritual, de experimentar o teu toque, é a mesma. Como se esta parte de mim tivesse adormecido num conto de Terras Frias, e acordado, suavemente, numa manhã amena de primavera, sem que o cenário e as restantes personagens, secundárias, se tivessem apercebido. Analepse… Este Nós com pulsar próprio e sincronizado à fração do segundo que de facto vivemos é ubíquo, gigante, avassalador e, ao mesmo tempo, terno, sereno, tranquilo…

Teoria da Disponibilidade

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Andei anos a tentar entender porque te aproximaste de mim.  Não fazia, não faço, nem nunca farei o teu género. As respostas às nossas dúvidas mais inquietantes chegam, muitas vezes, quando já desistimos de as procurar e nas circunstâncias mais incoerentes… A maturidade tem-me convencido de que, em caso de dúvida, o mais sensato é virar a página, desistir… A mulher que querias, que queres e que sempre quererás, não existe, mas vais continuar a procurá-la, porque estás convencido que a mereces e que a podes encontrar. Até lá, ou seja, até sempre, investirás em tentativas falhadas, em quem estiver disponível e à mão de semear. Eu só estava disponível. Descobri isso hoje, na sequência da um zapping, ao aterrar na TV Memória. “Quando não estou com a rapariga que amo, amo a rapariga com quem estou.”

Foz de Memórias ou Foge de Memórias

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Não sei se já está provado cientificamente, mas estou convencida que as mulheres têm mais e melhor memória que os homens. Duvido que te lembres, com tanto pormenor, dos nossos primeiros anos no Porto. Das águas-furtadas no Bonfim, a que chamavas Casa de Bonecas. Lembras-te? Dos longos passeios junto ao rio, aos domingos. Ficavas longos minutos, que a mim pareciam horas, a olhar para os pescadores. Dizias que, de tanto olhar, acabarias por descobrir de onde lhes vinha a paciência. Lembras-te? Dos fins de mês apertados, a contar os tostões que nunca chegavam a Contos. Eu, a servir de guia nas caves, antes da era das maquinetas falantes. Tu, a guardar livros e a contar os Contos de outros. Lembras-te? Da primeira noite de S. João, em que atravessámos a ponte D. Luís às centenas, e pensávamos que a ponte cairia. Lembras-te? Depois, com os dinheiros da CEE, mudámo-nos para a Cidade Maior e esquecemos a Cidade da Foz. Pergunto-me se os nossos filhos sabem que tenho tã...

Mila

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Hoje, tive companhia até ao Entroncamento. Tem um nome impronunciável, com vários ípsilones e muitas sílabas, mas toda a gente a trata por Mila. Veio de São Tomé há 5 anos. É estudante de Enfermagem e trabalha à noite num Call Center. Já trabalhou nas limpezas e na restauração. Tem de fazer diretas para entregar trabalhos na Escola. Nos estágios hospitalares que vai fazendo, os utentes de que mais gosta são os velhotes: gosta de os ouvir e de negociar com eles as higienes e as refeições. Aos sábados à tarde vai dançar Kizomba ao Barreiro. Enjoa no cacilheiro, mas, quando lá chega, esquece-se tudo. Diz que o português “não vive” e é “bué stressado”. Em uma hora e meia não lhe ouvi uma queixa. Resgates e troikas não lhe devem dizer muito. Sempre sorridente. Linda. Não sei porquê, mas não consigo imaginar a Mila num serviço de geriatria dos Alpes Suíços, a dançar Kizomba na neve.

Terceiro encontro com o escritor

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- Acredita que um escritor medíocre se pode transformar num bom escritor? - E o que é um bom escritor? - Um escritor que reúne consensos? - Consensos de quem? - Mas pode haver evolução na escrita… - Sim, mas será sempre paradoxal. A nossa escrita evolui deixando a descoberto os erros da escrita do passado, os erros de outros autores. Chega a ser perturbador. “Como pude escrever daquela maneira?!”. - É uma evolução que acompanha a evolução intelectual do próprio autor, suponho… - Não. Isso é ilusório. Evolui-se mais rapidamente na escrita. A escrita é, muitas vezes, a projeção codificada do que gostaríamos de ser. Somos melhores na escrita do que na vida real.

Elevador

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Encontrei-te hoje no elevador de um centro comercial. Já não te via há 7 anos e confesso-te que, ao longo desse tempo, aprendi a não pensar em ti. Foi estranho. Embora distantes, sem contacto, sempre estivemos, de alguma forma, ligadas. Ligadas por um sonho. Ligadas pela música, por duetos sincronizados, por um sol que, afinal, caiu. Hoje, envergonho-me de algumas palavras que te possa ter dito (disse?). E que, se não disse, pensei, o que, no fundo, vai dar ao mesmo. Devíamos nascer todos com o dom do registo certo, da serenidade na ponta da língua... Chamam-lhe "maturidade"... Não mudaste muito. Achei-te mais magra e envelhecida. Um pouco triste, talvez. Não te entusiasmaste muito com o nosso encontro, ao contrário de mim. Eu e os meus entusiasmos precoces... Não gostei da forma como mandaste reter a porta do elevador. Podias ter descido mais um piso para conversarmos mais um pouco. Na verdade, nem conversámos. Circunstanciámos. É incríve...