Mensagens

O Sentido de um (do) Fim

Imagem
Quando a meio de uma grande empresa, gosto de fazer um desvio sem consequências. Tinha sido avisada por anteriores leitores d’A Montanha Mágica que esse desvio se imporia. O “meu” desvio chama-se “The Sense of an Ending” e é o mais recente proclamado Booker Prize de Julian Barnes. Devo confessar que fui mais pelo título do que pelo prémio (o que é um prémio afinal?). O livro tem, de facto, qualidade e recomendo. Como nunca tive jeito para a crítica literária, vou saltar resumo e considerações e ir directamente ao assunto. Quando terminei o livro (é indescritível esse momento suspenso do ponto final…), dei por mim a tentar relacionar o título do livro com o enredo (quem não o faz?). Nem os dois suicídios que assombram a história até ao fim me convenceram. Porquê de “um” fim? Porquê o artigo indefinido? Há mais do que um fim? O que é o fim? Aquilo a que vulgar e abusivamente se apelida de “fim” será mesmo um fim? O fim do dia, o fim do curso, o fim de uma relação, etc. Prefiro chamar-lhe...

A vida nos bosques ou talvez não

Imagem
Passei a ter na mala apenas o telemóvel (para receber as chamadas da minha filha) e, dentro da carteira, o B.I., o Cartão Multibanco e o passe social. Retirei: a bolsinha da maquilhagem carregada de inutilidades, o kit de limpeza dos óculos, o pacote de lenços de papel, o bloquinho com as listas de compras, a caixinha dos cartões-de-visita, as chaves de todas as portas da casa, as pastilhas rennie, os pensos rápidos comprados aos putos romenos, etc., etc, Da carteira, retirei: o cartão das finanças, da segurança social, do centro de saúde, de pontos da Galp, da Repsol e da BP, do Continente e do Pingo Doce, os talões dos restaurantes e dos supermercados dos últimos 9 meses, etc., etc. O meu guarda-roupa passou a ser exclusivamente constituído por básicos confortáveis, sabrinas e sapatilhas. Abdiquei da maquilhagem, do secador de cabelo e da Epilady. Lá em casa, levei a cabo uma operação de limpeza radical: 2 carregamentos para a Remar e 3 sacos grandes da Toys’R Us (que a vizinha do 3....

Reposteiros

Imagem
Antes de abrir a porta, já sabia o que me esperava: o vazio. A minha ex aproveitou a minha viagem à Beira para despejar o apartamento. O “contrato” era aparentemente certeiro: quando decidimos juntar os trapos, eu comprei a casa, ela comprou o recheio e encarregou-se da decoração. Quando decidimos separar-nos, eu fiquei com a casa, ela com o resto. Bem vistas as coisas, até me correu bem: só tive de ir passar um fim-de-semana à terra natal. Não tive de me preocupar com caixotes e empresas de mudanças. Como homem prevenido que sou, trouxe da terra o saco-cama dos tempos do campismo em Mira. Não achei que precisasse de mais alguma coisa. Recusando-me a reocupar o quarto do meu descontentamento, instalei a minha nova cama na sala, junto à lareira, com a “cabeceira” virada para a janela. Para variar, queria adormecer a olhar lá para fora… Foi aí que me apercebi da “herança”… Não me lembro de ter desembolsado um cêntimo naquilo… A minha ex tinha-me deixado os reposteiros da sala pregados à ...

Óleo de Cedro

Imagem
Voltei hoje àquela praia após quinze anos. Assim que pus o primeiro pé na areia e a minha vista alcançou as barraquinhas, lembrei-me logo dela. Éramos vizinhos de praia. Reservávamos as barracas de um ano para o outro para conseguir os melhores lugares. Apesar de um ano inteiro sem contacto, sabíamos que, logo no primeiro dia, a menina Idalina - Lina para os amigos - lá estaria. Chegávamos por volta das nove e meia, eu, a minha mãe a minha irmã. Hei-de morrer sem ter visto o meu pai pisar a areia e ir ao mar. Quando chegávamos, a Lina já lá estava: - Gosto dos primeiros movimentos na praia – Dizia ela. Embora bastante mais novo, acho que tinha uma paixoneta pela Lina. Fingia não prestar atenção àquela “conversa de mulheres”, mas sorvia cada comentário, cada máxima, cada ritual, cada cheiro. Vinha sempre sozinha, nunca falou muito do resto da sua vida e dos restantes onze meses do ano. Essencialmente, “trabalhava para o bronze”: ia ao mar em linha quase recta, não fosse pelas ...

Sardinhas

Imagem
- Ó chefe, a sardinha é fresquinha? - É, sim senhora! Aqui não há sardinhas dos Intermarchés ou dos Continentes, menina. Fui logo de manhã buscá-la a Aveiro. Já foram 6 caixas! - O.K.. Vamos lá provar isso. Não é pequena para a época? - Não, menina. A sardinha quer-se pequenina. Só se deve virar duas vezes. É como as mulheres: não gosta de ser muito rebolada! - Ah. Não sabia. Vou tomar nota disso. [sorriso] - Aqui dos lados, é só gente a sair descontente: «As minhas estavam moídas…», «Mal-empregado dinheiro!». Aqui, veja! Rijinhas, salgadinhas com sal do mar, grelhas limpinhas… Não falha nada! Já cá veio o Fernando Mendes várias vezes, no outro dia esteve cá o Passos Coelhos… Aqueles senhores que ali estão sentados, estão alojados na Casa dos Melos e há quatro dias que aqui vêm. Dizem que não gostam de correr riscos. Aqui não apanham barretes! - Muito bem! - Têm que provar o nosso polvo à lagareiro e o bife na telha. Cinco estrelas! - Combinado!

Push-up

Imagem
- Ó filha, puseste silicone? - Não mãe, que ideia… - Mas estás… diferente… - É do sutiã, mãe. É um “push-up”. - Um quê?! - Um “push-up”, mãe. O Pedro disse-me que tinha de realçar o peito. - O Pedro?! Não me digas que arranjaste namorado e não me disseste nada! - Não, mãe, o Pedro é consultor de imagem; deu-me umas dicas sobre o que devia melhorar e o que devia evitar. Só estou a seguir os conselhos dele. Não gostas? - Não se trata disso, filha. Estás diferente, é só. Chama um bocado à atenção… - E? - “E” nada. Tu é que sabes. Ainda bem que não é silicone. Essas coisas fazem mal… - Eu gosto, mãe. Sinto-me “nova”. A minha auto-estima disparou. Tudo me fica bem. E estas novas cores?! Não ficam fantásticas no meu tom de pele? - Sim, filha, ficam. Estás linda.

Oitava e última consulta

Imagem
«Love can cause addiction, Run before it’s too late» Anónimo - Conseguiste responder à pergunta? - Sim. - Estás livre? - Estou. [sorri] - Qual foi o “exercício” afinal? - Exercício longo… Tomei consciência do desequilíbrio, dos excessos, do meu extremo oposto. - Extremo oposto? - Sim, o meu sentimento extremo levou-me a um grau de exigência que ele jamais poderia ou conseguiria acompanhar. Dos extremos vem o mal. Decidi libertá-lo. - Mas não foi ele que, mais uma vez, não te deu resposta? - Não. Simplesmente não respondeu a uma mensagem, logo deu-me a resposta que eu tanto procurava. Na verdade, também ele me libertou… - Como te sentes? - Pela primeira vez em muito tempo, em paz. Tranquila, renovada. Voltei ao meu meio-termo. (…) - É uma despedida? - Sim, é uma despedida.