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Uberistas 1

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Mudam-se os tempo, mudam-se as profissões. Nos últimos tempos, converti-me aos uberistas e confesso-me rendida. É como ter um James (o Ambrósio já deve estar reformado) à porta dos sítios de Lisboa onde me movo. São educados, igualmente faladores e, no último Natal, um deles até me ofereceu um Ferrero Rocher. Ah! E são multifunções. Hoje, foi assim: - A Menina está mesmo carregada!... - Não me diga nada... - Aposto que são alergias... - Também... - Está a tomar alguma coisa? - Sim, para a gripe. E pastilhas para a garganta. - Não está a tomar nada para as alergias?! - Ocasionalmente, tomo o Cetix, quando estou muito aflita. - Isso não faz nada! Tem de tomar o Zyrtec! - Ui! O Zyrtec põe-me a dormir... Estou cá em trabalho; tenho de estar concentrada... - Mas agora há um novo, um Zyrtec que é mais fraco. Devia experimentar. - Sim, talvez experimente... - Olhe que eu sei o que é isso! Sofro imenso também. Até que descobri este novo Zyrtec. Também sou massag...

A Leitura e a Veleidade da Escrita

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Queria escrever um texto sobre a minha vontade de escrever, sobre o sentido da minha escrita, mas, em vez disso, sou transportada para um gosto maior, um gosto primeiro e primário: o da leitura. Lembro-me de ter aprendido a ler rapidamente, pelo prazer da autonomia e da descoberta; lembro-me até de exibir os meus dotes de leitora, muito pequena. Filha única, os livros ocupavam o vazio da irmandade inexistente, das longas ausências dos meus pais, em trabalho, da solidão. Depois dos livros infantis, veio a coleção “Uma Casa na Pradaria” de Laura Ingalls Wilder, que devorei; mais, tarde, vi a série na TV e orgulhava-me de já saber o que se iria passar, ao pormenor. Sempre gostei mais de livros do que de filmes... Foi também a leitura que me levou à paixão pela língua portuguesa (que, embora sendo a minha língua materna, se se entender por “materna” a que se ouve na barriga da mãe, não é a minha língua primeira). Lembro-me de passar um verão inteiro a dissecar Os Maias a golpes de ...

Meta-identidade do Escritor

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Nota : O texto que se segue pode conter elementos de “spoiler”. Acabei anteontem a leitura do último livro de João Tordo, A Noite em que o Verão Acabou. Apesar das festas de final de ano e de o livro ser algo volumoso, li-o em duas semanas.  Esta avidez fez-me lembrar a experiência que tive com o livro do suíço Joël Dicker, La Vérité sur l’Affaire Harry Quebert (li a versão francesa; a versão portuguesa intitula-se A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, trad. de Isabel St. Aubyn), Grande Prémio de Romance da Academia Francesa. A obra deu, mais tarde, origem à série The Truth About the Harry Quebert Affair, protagonizada por Patrick Dempsey. À semelhança do “Thriller” de Tordo, o livro de Dicker também nos dá conta de um escritor. Contudo, não pretendo aqui fazer comparações. Esta remissão faz-se apenas pelas sensações despertadas. Li alguns comentários ao livro de Tordo e uma boa parte questiona a classificação de Thriller. Outros questionam a fotografia da capa (quem é ...

50 Livros Maiores

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O livro “As Cinquentas Sombras de Grey” é o mais vendido da década que agora termina e eu não posso deixar de partilhar o que sinto. Começo por fazer-vos uma confissão: o meu maior ato de masoquismo “literário” foi tentar ler este livro... Sempre repudiei a “opinião” de quem diz não gostar de algo sem nunca ter “provado”. Tal se aplica a todos os quadrantes da vida, de um prato tradicional, passando por pessoas e culminando nos livros. Recordo-me de um jantar de família em que uma discussão deflagrou à volta de um jornalista-escritor português que estava a ser “queimado vivo” por ter escrito um livro que, supostamente, era “contra” a igreja católica. Não vou aqui discutir se gosto ou não gosto, nem tão-pouco apresentar os meus argumentos, mas quero apenas desmontar uma atitude que é por demais recorrente: esta de opinar sobre tudo e sobre todos, sem nunca se ter dado ao trabalho de sequer experimentar. E, à volta daquela mesa, depois de um breve inquérito, concluí que ninguém tin...

A Casa

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Já tinha passado dos 40 e estava já divorciada quando o meu pai comprou o casarão. Fui visitá-la com a minha mãe numa tarde de outubro, já o chão se cobrira de folhas cor de fogo e a temperatura apelava à lareira. Nunca percebi e nunca me explicaram os contornos daquela compra. A casa estava parcialmente mobilada, parecendo estar parcialmente habitada, não o estando. Era gigantesca. Daquelas construções de outros tempos, feitas para durar, com compartimentos amplos, nos quais se podia dançar a valsa de Strauss. A minha mãe passou a visita toda a chamar o meu nome e a proferir exclamações: - Laura! Anda ver! Que lindo! - Este vai ser o quarto da Helena! E aquele o do André! - Olha-me estas credências! Parecem ter um dossel! - E estes espelhos! Olha-me estas molduras em talha dourada! Parecem as da basílica do Santo Cristo! - Virgem Santíssima! (...)  A minha cabeça rodava de tanta informação. Por que teria o meu pai comprado aquela casa entre a serra e o mar de...

Sobre a beleza do que lemos

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Não tenho a pretensão de escrever recensões de livros ou exprimir a minha opinião sobre a qualidade de uma obra ou do seu autor. Não tenho – nunca terei – a bagagem livresca e extra-livresca que tais exercícios impõem.  Prefiro deixar-me tocar imparcialmente pelos livros e tentar (será sempre uma tentativa...) exprimir o que a sua leitura suscitou em mim, as sensações e emoções. Gosto genuinamente de José Tolentino Mendonça. Da sua simplicidade. Da sua humildade. Da clareza que ele me traz a temas para mim complexos (ao jeito de Morin), nomeadamente, espirituais. A forma despretensiosa com a qual escreve, também em outros livros, sobre o amor, a amizade, os sentidos, a fé. Encontro na leitura de Tolentino Mendonça o mesmo tipo de espanto que sempre encontro na leitura de S. Mateus. A minha fé sai sempre reforçada de um livro de JTM. Eu saio grata. Além do mais, o autor encontra, com os aforismos, uma fórmula cativante de falar com os mais céticos, os mais imedia...

Ressignificação

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Quando resolvi sair da tua vida, tive de me reinventar. Deixei de tomar café para não te encontrar nos sítios dos costume. Depois de alguns dias de enxaqueca, o corte na cafeína até foi benéfico: sentia-me mais calma e com mais vontade de dormir. Limitei ao máximo as minhas idas à cidade. E, quando já não podia adiar mais os depósitos bancários, lá ia resignada, inventando novos percursos e locais de estacionamento. Adaptei-me à vida circunscrita ao bairro, aos vizinhos que cruzam os nossos horários, ao mini-mercado que nunca tem exatamente o que queremos mas tem o que serve. Preenchi a minha vida extra-profissional (a que, entretanto, parecia sobrar) de pequenos acontecimentos que apenas enchiam a agenda: ginásio, musculação, dança, rotina de vídeos cheios de estratégias nutricionais e vivenciais, saídas com amigas que, entretanto, reapareceram, tentativas de leituras, tentativas cinematográficas, tentativas de recheio... Inventava-te mil e dois defeitos para justificar a mi...